O filme Maus Hábitos de Pedro Almodóvar: tem um tigre no jardim

 




 

“O monge luta contra as armadilhas e as tentações do mundo dos pecadores com a ajuda de seu hábito simples e completamente envolvente”.

  (Palla, 1999, p. 26)

 


A análise do longa-metragem Maus hábitos (1983) de Pedro Almodóvar   interpreta os elementos plásticos (as imagens), as músicas como o bolero e o diálogo com o cinema clássico de Hollywood como no filme A Vênus Loira de Von Sternberg (1932). A estética do kitsch, da ironia e da sátira confrontam com o sagrado/religioso com o profano, o exagero, as cores vibrantes, os boleros e a Espanha dentro do contexto cultural pós-franquista, que são marcas autorais do diretor (Canassa, 2018, p. 69).

O diretor e a inspiração em seu país é recorrente em seus filmes e refletem no imaginário coletivo de seu povo, bem como, nas reflexões, impressões e sentimentos das personagens como no filme Maus hábitos, cujo convento simboliza a visão irônica do diretor, em relação ao catolicismo, como uma provocação à igreja da Espanha.

O cineasta se defende e diz que o filme não é anticlerical, porque ele tem fetiche por santos, madonas, virgens, etc. Aproveita e releva também que, o ambiente das Redentoras Humilhadas, instituição que abriga mulheres que vivem à margem da sociedade, tais como assassinas, viciadas em drogas, prostitutas e outros tipos indesejados pela família reúne estas mulheres que nele permanecem abandonadas. O diretor nesta obra revela a situação das mulheres e seus dilemas, imersas num convento nada convencional. 

O real e ao imaginário se misturam e apontam para alguns elementos do Surrealismo como uma imagem do tigre no jardim convento. Segundo Almodóvar:

 

O tigre em Maus hábitos não é apenas um objeto plástico. Para mim, representa o irracional no filme (...) o tigre é um elemento essencialmente surrealista, que ajuda a compreender certas personagens, em particular a irmã Perdida, interpretada por Carmen Maura. (...) a principal metáfora do tigre é que ele se tornou enorme sem que se pudesse reprimir o seu crescimento como a personalidade das irmãs, que se desenvolvem de modo selvagem, num descontrole total (Strauss, 2008, p. 63).

 

Segundo o diretor, os desejos irracionais são configurados pela imagem do tigre e constituem uma metáfora plástica e evoca o lema do Surrealismo em que, a convivência nasce da aproximação, num lugar do espaço poético, de coisas distantes e às vezes contraditórias.

Em 1924, em Paris, o poeta André Breton escreve o Manifesto do Surrealismo. O movimento se formara gradualmente nos anos da I Guerra Mundial, baseado nas experiências de outras vanguardas como o Expressionismo. Com sua crítica ao racionalismo e ao materialismo da sociedade ocidental faz surgir o “sobrenaturalismo” como define Breton “fora de toda preocupação estética e moral”. Humor, fantasia excessiva, crueldade e angústia, presenciam as metamorfoses desconcertantes dos indivíduos polimóficos, recorrentes nos fulgurantes textos poéticos de Éluard ou Aragon, nas pièces teatrais de Artaud, nos cine-poemas de Buñuel e Cocteau, nas obras de Max Ernest, René Magritte, Salvador Dalí, Paul Delvaux, Yves Tanguy, Joan Miró, Jean (Hans) Arp, Henry Moore, Man Ray. E se é facilmente partilhável uma data de início da poética surrealista a partir dos funerais do Dada, mais discutível é a individualização de um epílogo: os efeitos da libertação surrealista caem como chuva sobre as gerações do segundo Pós-guerra (Uzzani, p. 2011, 01).

 



Carlos Eduardo Pereira, pesquisador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro comenta no catálogo da mostra do cinema de Almodóvar, que uma parte deste mundo natural e selvagem também habita o convento na figura do tigre. O tigre veio da África (sic), país no qual uma das freiras desapareceu ou foi “comida pelos canibais” como dizem as religiosas em relação ao seu desaparecimento. O felino representa o elemento do irracional - como uma metáfora do descontrole dos desejos irrefreáveis das personagens do filme – e, verifica-se, que o outro aspecto que deve ser observado no filme é uma espécie de dicotomia clássica entre natureza e cultura:

   

O ambiente do convento e das pecadoras constitui uma rica e particular cultura urbana, contudo existe outro espaço idílico e longínquo relacionado à natureza (...). A África diversas vezes mencionado na trama (...) é lá que elas são devoradas por canibais, copulam e podem parir um arremedo de Tarzan. (Catálogo da mostra El Deseo - o apaixonante cinema de Pedro Almodóvar, 2011, p. 66/67)

 

A forma com que Almodóvar estabelece contradições com os atos religiosos assumem um caráter teatral e de paródia, numa imitação burlesca dos ritos existentes no convento e também inclui a idolatria por figuras de estrelas de cinema juntamente com imagens de santos anônimos nas paredes.

A madre superiora interpretada por Julieta Serrano decorou o seu quarto com pôsteres de atrizes famosas de sua época como Brigitte Bardot, Ava Gardner e Gina Lollobrigida. E quando se examina Maus Hábitos, a mistura explosiva das drogas e da vida conventual feminina, numa comparação com a vida normal em sociedade, que não são prosaicos os atos das freiras, nem os fatos e acontecimentos por elas gerados, ou nos quais são e estão envolvidas. Referidos atos são embasados pelas verdades e realidades essenciais dos seres humanos nunca completamente passíveis de cerceamento, quaisquer que sejam as contingências e vontades alheias e mesmo próprias: “(...) de modo que não poderiam ser diferentes as personagens e nem diversos seus atos” (Bilharinho, 2010, p. 186/187).

 Segundo o autor, Almodóvar foge aos estereótipos e às idealizações pois, cada atitude, gosto e tendência das suas personagens fundamenta-se em um universo humano, complexo e substancial, autêntico, e tão diversificado como são as pessoas.

O diretor também substituiu a descrição psicológica de suas personagens pelas letras dos boleros e seus relatos, os quais seriam a extensão da fala como na cena em que a madre superiora faz um dueto com Yolanda Bell, enquanto toca o bolero no rádio intitulado Encadenados (acorrentados) de Carlos Arturo Briz, na voz do chileno Lucho Gatica. O dueto e a letra da música formam um diálogo estabelecido entre as personagens cujos olhares entre elas agem como se fossem uma declaração de amor. A madre superiora se apaixona, platonicamente, pela cantora e a grande cena musical é aquela em que Yolanda faz um dueto com a madre, as duas são filmadas em plano e contra plano, com câmera subjetiva.

Os boleros que elas ouvem no rádio, segundo Almodóvar:

 

(...) ilustram a história e levam a ação para frente ao mesmo tempo. Em Entre Tinieblas a música de fundo é de Rozsa. Eu sempre gostei muito de sua música e eu escolhi a música que fez para Providence (Alan Resnais) devido a uma série de associações de imagens (...). Já em Maus hábitos e este estranho jardim com um tigre vivendo nele, a mesma imagem veio a minha mente e eu considerei esta mesma música. E, efetivamente, ela é ideal para a atmosfera do filme (Strauss, 2008, p. 52).

 

 A música impregna a atmosfera do filme, no momento de sedução entre Yolanda e a madre, que é subversiva, considerando a carga erótica entre elas e a qual se torna visível para todos. Nota-se, ainda, que do ponto de vista religioso é um pecado, que algumas delas sonham em praticar. As relações amorosas no ambiente do convento acontecem às escondidas, em quartos, cantos e no confessionário, para que as aparências possam ser mantidas.

Segundo Almodóvar:

 

O que me interessa e me fascina e comove na prática religiosa é a capacidade de criar comunicação entre as pessoas, inclusive entre duas pessoas que se amam. O que mais me interessa na religião é a teatralidade (Strauss, 2008, p. 58).

 

 As suas personagens seguem uma conduta libertária e transgressora e que vai permear este perfil feminino em todos os seus filmes. Os movimentos feministas, os discursos emancipatórios e a sedimentação das transformações do pós-guerra, também influenciaram o diretor: “(...) tornam a condição feminina um tema definitivamente político. (...) o diretor inicia o seu cinema influenciado pelos movimentos feministas trazendo um perfil feminino mais realista para as telas.  (Rodrigues, 2008, p. 24).

O cineasta, sensível aos dilemas das mulheres as retratam por meio de suas personagens fortes e independentes e portadoras de discursos, que possibilitam uma expressão do feminino que é capaz de revelar a sua subjetividade, sua sexualidade e sua sensibilidade, trazendo à tona os fetiches e desejos que a mulher carrega secretamente. 

Almodóvar começa desde criança a povoar o universo feminino por meio da família, mãe, tias, irmãs e atrizes de Hollywood do período de ouro e que ainda permanecem no imaginário social contemporâneo. No cinema são um espetáculo à parte, por fixarem tipos femininos ou estereótipos e a questão da sexualidade feminina se mistura com o desenvolvimento da indústria de Hollywood e de suas estrelas engendradas pelo star system, que é desde então, considerado o coração da indústria cinematográfica. A estrutura das histórias nos filmes concentrava a imagem da mulher como um espetáculo e a sua subjetividade ficou “não-dita”, porque ela estava encoberta pela repressão e tornou-se impossível representar na tela a sua autonomia.

O ponto de vista a ser explorado pelo diretor é de que os signos do cinema hollywoodiano estão carregados da ideologia patriarcal, que sustem as estruturas sociais e que constrói a mulher de maneira que reflete as necessidades e o inconsciente patriarcal. As imagens dessas atrizes tornaram-se emblemas de beleza, sexualidade e transformaram-se em ícones da cultura pop.

Os astros de cinema deixaram de serem apenas ícones de suas épocas e reproduzidas exaustivamente em diferentes mídias as suas imagens viraram emblemas de comportamento extremamente atuais e Almodóvar inspirou-se na personagem interpretada por Marlene Dietrich no filme A Vênus Loira (Joseph von Sternberg, 1932) como uma primeira ideia para conceber a estrutura psicológica de Yolanda, apesar da atriz não conseguir atingir a performance da diva hollywoodiana, nem a sua impetuosidade.

A protagonista do filme de von Sternberg é uma dona-de-casa, mas que passa por uma mudança radical e, segundo Almodóvar, ela: “(...) é cantora, prostituta, que atravessa o mundo e vive um número infinito de aventuras.  Esse tipo de personagem era a referência ideal para o filme que eu queria fazer” (Strauss, 2008, p. 55).

O diretor se refere à Marlene Dietrich e os seus closes e o seu figurino masculino com casaca branca e com Cary Grant ao seu lado, simbolizando o poder da imagem da estrela aliada à sua beleza e eroticidade, que envolve o ambiente onde os homens ali presentes, em seu show, parecem querer desfrutar de sua companhia. A figura da estrela exposta na tela é como um fetiche concebido no cinema para eliminar o temor masculino diante de sua exuberante imagem.

Segundo Kaplan:

 

(...) em A Vênus loira encontramos Dietrich, que é uma artista de variedades e em muitas sequências foi filmada de modo a ser o receptor direto do olhar do espectador. Fragmentada em closes, o seu corpo é transformado no espaço da tela, sem que mais nada exista. (...) a personagem deste filme veste uma casaca de homem com cartola e o seu figurino imaculado e o seu corpo irretocável, criaram uma imagem artificial favorecida pela iluminação expressionista. (Kaplan, 1995, p. 83)

 

 Segundo a autora, os trajes masculinos da personagem reduzem a ameaça sexual da mulher e permite uma forma de convivência feminina, que exclui os homens desse modo subverte a ordem patriarcal. O filme é construído para o espectador masculino, que utiliza a transformação da forma feminina em fetiche, como método de dominar as mulheres em seu sistema representacional. Porém, a atriz revelava a consciência de sua posição oprimida por meio de sua interpretação, e usava deliberadamente, o seu lugar, como objeto do olhar masculino, tornando a espectadora feminina consciente desse lugar.

Segundo Kaplan:

 

A sua compreensão do discurso extracinematográfico em que é situada permite certo distanciamento daquilo, que lhe está sendo feito e que cria uma brecha através da qual a espectadora pode entrever a sua construção no patriarcado (Kaplan, 1995, p. 82).

 

 Diante disso, Almodóvar mostra as suas personagens femininas muito bem deslocadas deste tipo de papel do cinema clássico de Hollywood, apesar de se inspirar nas divas com a sua beleza e interessou-se pela figura de Dietrich, e pelo seu glamour, em favor da sua imagem como inspiração para suprimir uma falta na atuação da atriz Cristina S. Pascual, que não conseguiu encontrar a dimensão da personagem.

Portanto, a saída foi encontrar no olhar de Julieta Serrano, a dimensão esperada na cena no dueto. No plano técnico, o filme proporcionou a descoberta do primeiro plano e o diretor comenta:

 

Foi ao dirigir o filme Maus hábitos, em particular ao filmar Julieta Serrano, que interpreta a madre superiora e percebi a força do primeiro plano, uma imagem bastante simples, mas cujo conteúdo narrativo é muito específico e de utilização muito complexa. O primeiro plano é uma espécie de radiografia da personagem e não permite enganos. É fácil de realizar tecnicamente, mas é preciso estar seguro do que a personagem deve transmitir nesse momento exato e de como o ator vai transmitir esse sentimento (Strauss, 2008, p. 57).   

 

O plano no cinema é a representação em projeção horizontal das diferentes partes da imagem e a posição relativa dos objetos representados e escalonados em profundidade. Além disso, em relação aos planos gerais em profundidade, o diretor considera que existem cenas em que algumas personagens se localizam ao fundo, enquanto outras estão no primeiro plano da cena.

Entre Tinieblas, Tinieblas, o título em espanhol, significa treva, falta de luz, e que reflete no vestuário, a nível simbólico como o hábito negro das freiras. O figurino pode ser interpretado como a morte para o mundo, ou seja, a ordem é rezar e trabalhar para a obtenção da salvação. Com efeito, a indumentária, e tudo que cobre o corpo, exprime uma identidade, bem como, um estado de alma, ou um mistério litúrgico, e pode desempenhar, ao mesmo tempo, uma função emblemática, alegórica ou simbólica: “O monge luta contra as armadilhas e as tentações do mundo dos pecadores com a ajuda de seu hábito simples e completamente envolvente”.  (Palla, 1999, p. 26)

Segundo a autora, a linguagem do traje não serve apenas para transmitir dados práticos; serve, da mesma forma, para identificar conceitos ideológicos e a sua expressão numa sociedade determinada.

Nesse sentido, o figurino neste filme é importante, não apenas para as personagens, mas também indica que o diretor com seu estilo provocador, sugere que as religiosas estão mais próximas da terra do que do céu e não dissocia o riso da paixão religiosa, cujos gestos encenados, por meio da iconografia católica, transformam-se numa teatralização dos desejos e das paixões deslocadas no ambiente de um convento, conforme ele explica:


No que se refere a Maus hábitos, os hábitos das religiosas interessam-se também para os planos gerais em profundidade e no filme há muitos (...) suas vestes negras são perfeitas para sugerir a ideia de que estão mais próximas do mundo subterrâneo que do universo celestial (Strauss, 2008, p. 58).

 

Segundo Almodóvar, os sentimentos puramente humanos são contraditórios e mantém-se numa naturalidade e no que tange na interpretação das personagens  fornecem a credibilidade necessária ao espectador diante dos acontecimentos absurdos, os quais são do próprio filme com base surrealista. As personagens vistas na perspectiva marginal são todas aquelas que não representam a ordem, ou seja, que estão à margem da sociedade e que chegam à tela num sentido de surpresa, ao esconderem a multiplicidade de seus desejos transportados pela via da estética do surreal. A realidade anti-heroica das religiosas abrange as categorias do ridículo e do picaresco, nos quais traduzem a sua realidade no convento na forma da paródia, num tom de ironia.

E o que distingue o cinema de Almodóvar de outros diretores é o seu poder excepcional que vem do fato de sua linguagem funcionar a partir da reprodução fotográfica da realidade em forma grotesca e absurda.  

O seu cinema esconde uma certa reflexividade e um olhar crítico em direção às instituições, ao abordar os temas sociais de seu país, que surgem escamoteados, escondidos como no enredo de Maus hábitos. Ao lado disso, as personagens apresentadas como marginais são apropriações ou sintomas da cultura madrilena, num olhar retrospectivo articulando o passado e a memória deste diretor no seu longa-metragem.

 

Referências bibliográficas:

BILHARINHO, Guido. O filme dramático europeu. Uberaba: Instituto Triangulino de Cultura, 2010.

CANASSA, Rosângela. As mulheres no cinema de Pedro Almodóvar Caballero e a reinvenção do melodrama hollywoodiano. Novas Edições Acadêmicas: Internacional Book Market Service Ltda, 2018.

KAPLAN, E. Ann. A mulher e o cinema: os dois lados da câmera. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

PALLA, Maria José. Traje e pintura: Grão Vasco e o Retábulo da Sé de Viseu. Lisboa: Ed. Estampa, 1999.

Rodrigues, Ana Lucilia. Pedro Almodóvar e a feminilidade. São Paulo: Escuta, 2008.

STRAUSS, Frédéric. Conversas com Almodóvar. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Catálogo da mostra El Deseo – o apaixonante cinema de Pedro Almodóvar. Angélica Coutinho (org.). Rio de Janeiro, 2011.

UZZANI, Giovanna. Pocket Visual Encyclopedia: Surrealismo. Florença/Itália: Scala, 2011.

 

Postado em: 23/02/2021

Autora: Rosângela Canassa - psicóloga e escritora.

Contato: rocanassa@uol.com.br

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