Pedro Almodóvar e Dor e Glória: quando a arte imita a vida


Dor e Glória (2019) é o filme mais autobiográfico de Pedro Almodóvar ao tratar da encruzilhada vivida por um diretor aflito, sem inspiração e que admite que tomou a sua vida e seus filmes como referência. A trama visita três épocas distintas: a infância na cidade para onde os pais emigraram nos anos 1960; o primeiro amor em Madri nos anos de 1980; e o presente.

Nesse melodrama, Salvador Mallo (Antonio Banderas), alter ego do diretor revela ao espectador, os momentos difíceis da vida de um cineasta famoso e a verdadeira face da solidão e cuja fama é um preço alto a se pagar.

O resgaste do passado familiar e as cenas que ocorrem na sua infância são reveladas com delicadeza  no branco das roupas estendidas no varal perto do rio. O resultado mostra o valor do detalhe numa imagem singela e que vai evoluindo no tempo fílmico, juntamente com as lembranças de lugares e de pessoas que Salvador conheceu e transmite ao espectador, com as forças mais ocultas e recônditas de uma vida que pensávamos já ter visto de tudo no seu cinema com suas redundâncias.

O diretor não tem medo de colocar o afetivo e o sentimental em suas histórias, considerando que a origem da estética do melodrama decorre justamente destas características citadas pelo crítico de cinema.

O tema da morte real e suas doenças que aparecem no corpo do cineasta evocam o medo de sua finitude. Porém a morte num filme pode ser narrada de forma natural como a cena da mãe interpretada por Julieta Serrano e nos seus momentos finais de vida em Dor e Glória.

O imaginário religioso do diretor (confessa ser ateu) surge nesta personagem materna embevecida com a chegada da morte ao ensaiar o seu funeral com suas roupas próprias e o crucifixo. A cena relembra a matriarca de Volver (Almodóvar, 2006), que é considerada como morta e surge no porta-malas do carro da filha mais velha, ou seja, as cenas ocorrem sem conotações sinistras sinalizando a maneira pela qual o diretor encontrou de incluir o sobrenatural ao natural.

O culto aos mortos sempre foi um tema importante em seus filmes e funciona na forma da paródia, que representa a sua defesa contra o seu sofrimento diante da morte, mas que faz parte da vida e precisa ser aceita. E é exatamente essa parte que a torna digna de ser vivida como num clichê melodramático espanhol.

Segundo Juan José Millás, o crítico comenta que Almodóvar:

 

Ele não vai do quimérico para o real, que é a coisa habitual, mas parte do real para o quimérico. Ele transforma tudo que lhe acontece na vida real em um sonho e ocasionalmente, em um pesadelo. (Almodóvar 2011, p. 325)

 

Em Dor e Glória, o diretor regressa ao seu gosto pelos labirintos da memória e retoma-os na sua ficção, na estrutura narrativa em flashback e com o protagonista mergulhado numa piscina com o corpo submerso na água. Ele vê a si mesmo como numa jornada interior para poder assistir a própria vida se desenrolar.

A sua ficção aqui o termo está relacionado ao imaginar em palavras, imagens e sons com a sua habilidade de escrever, falar, ouvir e ler. Segundo Hillman: “é um trabalho de fabricação, e que entendo como fabricado pela imaginação em palavras” (Hillman, 2010, p. 12)

Nessa digressão, a sua narrativa está conectada com o quimérico, o imaginário e ao ilusório, que refletem no seu modo de representação e nas diversas implicações como por exemplo, a questão da realidade e do real, do verdadeiro e do falso, os poderes e limites da imagem e as relações que se formam num cinema autoficcional, bem como, da reflexibilidade como este filme de Almodóvar, que oscila entre narrador e o personagem.

O público sabe que ele está escondido em seus personagens e ele escolheu a dupla natureza da imagem cinematográfica, entre objetividade e subjetividade, entre vida e ficção e ao seu modo, ele trabalha com o passado, sendo que, o passado é a sua única realidade inquestionável que ele possui.

O seu enfrentamento com a sua própria finitude decorre de uma resignação do cineasta ao aceitar a sua própria condição humana e por possíveis errâncias que tenha cometido, ele exibe-se na sua autobiografia de Dor e Glória cujo centro é ele mesmo, conforme ele se descreve:

 “Acho que me especializei um pouco nesse gênero de histórias, que a princípio parecem um pouco extravagantes (...), para mim, contêm essas emoções misteriosas que vou descobrir escrevendo e depois rodando o filme” (Strauss, p. 292).

Dor e Glória pode ser considerado a sua obra síntese e que retorna ao seu passado infantil, o tema da morte, da finitude do corpo e da expressão estética envolvida pelas fantasias e seu imaginário.

Rosângela Canassa – postado em 16/06/2021

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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