Mulheres à beira de um ataque de nervos de Pedro Almodóvar e as articulações com o melodrama de Hollywood




 

Pedro Almodóvar (1949) no cenário internacional, o filme projetou o diretor espanhol destacando-o como um dos mais criativos realizadores europeus das últimas décadas. E a ideia inicial para a construção do filme Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), ocorreu a partir de um projeto de adaptação da peça A Voz Humana (Jean Cocteau, 1927). O diretor aproveitou alguns trechos no monólogo da peça e realizou a adaptação para o monólogo de Pepa (Carmen Maura) a qual tinha por tema uma mulher abandonada. 

A metalinguagem neste filme é com outra obra cinematográfica, que é o filme Johnny Guitar (Nicholas Ray, 1954). Almodóvar utilizou alguns trechos desse filme, que também trata do tema da mulher abandona pelo ser amado. Segue o diálogo extraído do filme: Johnny: Eles devem ter vivido felizes para sempre. Vienna: Não foi assim. Eles romperam. Ele não podia ver a si próprio acorrentado a um lar. (Johnny Guitar, Nicholas Ray, 1954)

O melodrama Mulheres à beira de um ataque de nervos, cujo epicentro são as personagens femininas como exemplares da heroína moderna na tela. Pepa, após passar por sérios embates matrimoniais, a personagem vive das recordações de Ivan (Fernando Guilién) e o jogo de máscaras do amante envolve as mulheres; porém, este encarna o Don Juan da literatura espanhola e ao mesmo tempo que é atraente, é repugnante; vive sem remorsos, na sua promiscuidade, sem levar em conta a mulher, que seduz sob os seus encantos. 

Outro filme que o diretor se inspira é Oito e Meio (Fellini,1963) e as cores em preto e branco no filme de Almodóvar, que transmite a ideia de que Ivan como Guido pode ser a personagem-protótipo de homem na meia idade e numa crise existencial.

A escolha do gênero do melodrama, se justificava pela dificuldade encontrada por uma personagem, geralmente mulher, ou por um conjunto de personagens para romper os limites determinados pela ordem, ou seja, pela lei do patriarcado. O melodrama é a materialização corriqueira do não-visto e do não-dito, enquanto as mulheres, em seu silêncio são marginalizadas e retratadas como vítimas do desamor e das adversidades como a personagem Lucia (Julieta Serrano), a ex-esposa de Ivan. A ficção de Almodóvar é capaz de captar e de transformar na forma de narrativa ao explorar as experiências das mulheres e a lucidez de suas personagens, que não cabe no mundo organizado pelo patriarcado.

Segundo Almodóvar:

(...) o que ela exprime é a loucura de seu amor. Ela deve destruir todas as recordações que tem de Ivan, porque cada vez que algo lhe evoca a imagem desse homem, ela é novamente subjugada por sua paixão. No entanto, como ela diz a Carmen, por mais que destrua todas as recordações de Ivan, nada adianta se ela continua vivendo e é por isso que ela quer matá-lo (Strauss, 2008, p. 117).

O diretor ressalta que Lucia expressa a idealização romântica do casamento, que deve durar para sempre, conforme os pressupostos do patriarcado. Além disso, o figurino da personagem Lúcia expressa o vazio e a ausência de qualquer consciência como escreve o diretor:

Eu tinha encontrado modelos de Courrèges e mandei fazê-los para Julieta. Adoro roupas dos anos 60. Além disso, elas têm uma função dramática no filme uma vez que a mulher interpretada por Julieta que enlouqueceu 20 anos antes, para ela esses 20 anos não existiram, viveu-os no vazio e na ausência de qualquer consciência (Strauss, 2008, p. 117).

A personagem parou no tempo quando foi internada num hospital psiquiátrico, conforme o seu figurino. Almodóvar e a vestimenta da personagem dos anos de 1960 aponta para um elemento essencial para a sua construção, considerando que a narrativa visual do figurino é um importante signo que comunica, transmite mensagens e produz sentidos como uma psicologia da débil esposa de Ivan, que deseja matá-lo.

Segundo Peter William Evans:

A demência feminina causada pela teatralidade masculina encontra sua representação mais trágica em Lucia, e sua variante mais cômica no desempenho de María Barranco como Candela, a involuntária companheira do terrorista xiita. Desde seu primeiro papel no filme de Almodóvar (O que fiz para merecer isto?!), María Barranco estabeleceu-se como destacada atriz cômica no cinema espanhol; seu ar ligeiramente aparvalhado, seu sotaque andaluz e seu jeito distraído tornaram-se extremamente apropriados para o papel de Candela em Mulheres à beira ( Evans, 1999, p. 65).

Pepa, ao contrário de Lucia, encontra outras formas de lidar com o sistema do patriarcado conforme a lógica de Butler:

Compreender que existe uma outra lógica distinta da lógica patriarcal, ou ainda, uma ordem simbólica para além da ordem falocêntrica, que significa entender e buscar outras formas de compreensão e de diálogo com o outro, que poderá ser o louco, o estrangeiro, a criança ou o feminino (...) poderá ser tudo aquilo que não se encaixa na ordem simbólica do patriarcado (Butler, 2015, p. 192).

Os conceitos de Judith Butler, que é uma filósofa pós-estruturalista americana, uma das principais teóricas contemporâneas do feminismo e teoria queer, vão além da ordem simbólica do patriarcado. O que ela estabelece são as possibilidades num encontro com o outro quando diz que somos despossuídos de nós mesmas em virtude de alguma forma de contato com o outro, em virtude de sermos movidos e surpreendidos pelo encontro com a alteridade:

O outro não é apenas aquele que me constitui, que me garante através do reconhecimento de meu sistema individual de interesses pessoais. Ele também é aquele que propicia uma transformação da qual não há retorno. O entendimento da concepção do que significa “si-mesmo” que deve se modificar. Os encontros que o indivíduo vivencia e o reconhecimento se torna o processo pelo qual o sujeito torna-se diferente do que foi antes. O “eu” é transformado pelo ato de reconhecimento. Tal experiência não é simplesmente episódica, não apenas nos movemos, mas somos movidos por algo “fora” que reside em nós (Butler, 2015, p. 184).

De acordo com os pressupostos teóricos de Butler, a personagem central e sua relação com Ivan, amante de Pepa, mesmo sendo infrutífera, a torna vítima de uma insatisfação amorosa perante a sua existência, mas a experiência é transformadora pelo ato de reconhecimento de si mesma. Caso Pepa tentasse o suicídio, após o abandono do amante como poderia ocorrer com Lucia, o discurso narrativo não teria transcendido o sentido patriarcal, o que revela que o cineasta não sustenta esse sistema junto aos seus filmes.

Segundo E. Ann Kaplan, autora e diretora americana: 

A natureza feminina está ligada à cultura patriarcal e sente-se imobilizada de qualquer consciência, após o abandono do marido e em relação ao melodrama: “A mulher sacrifica-se em favor do desejo masculino e presa a sua vulnerabilidade tanto econômica como sexual precisa de um homem que a proteja de sua própria vulnerabilidade” (Kaplan, 1995, p. 20-21).

As articulações no melodrama entre a família e o amor, na análise desse filme, parte do pressuposto de que a vida humana interage numa associação combinatória com várias formas do desejo e das paixões. O filme Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988) é a película matricial de Almodóvar, que caracterizou a sua estética e levou-o a ser reconhecido internacionalmente e sua melhor bilheteria na Espanha. 

Segundo Peter William Evans, no ensaio Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos: “O filme estuda os relacionamentos entre homens e mulheres e Pepa ocupa o centro de um colorido grupo de personagens que representam um vívido perfil da sociedade espanhola de nosso tempo” (www.museudocinema.com.br – acesso em 20.07.2015).

Madri, além de ser a cidade ideal porque será um espaço que vai surgir em outros filmes no futuro, representa para o seu povo a transição entre o rural e o urbano e vai surgir nos diálogos dos personagens como Pepa e Candela, segundo Pilar Martinez:

Pepa havia construído um galinheiro que abriga pombas, patos e coelhos. Na sua voz em off ela diz: “Me sentia como Noé (...) Salvei os animais, mas não consegui salvar a minha vida é o que mais me interessa”. Já Candela é manequim e o seu comportamento é de uma mulher pobre, que virou uma top-model. A sua origem humilde se revela na sua conversa com Carlos quando fala que já tinha criado coelhos. A apresentadora da TV também tem a sua origem rural na cidade de La Mancha. A Madri neste filme é feita de contrastes com a mistura do rural com o urbano integrado à cultura espanhola (Varella, 2005, p. 118).

Ademais disso, por mais extravagante que Pepa possa ser, ela causa a identificação do público por sua espontaneidade e do seu amor bruto, como revelam as letras das canções, que sublinham os sentimentos da personagem e ajudam a tecer o fio narrativo. 

A música também estabelece uma tensão contínua com os demais elementos na trama. Esse aspecto por si só aponta a influência do efeito musical na construção de uma cena fílmica e a força dos elementos sonoros, que irão acentuar a mise-en-scène da personagem central e que é característica do próprio melodrama. Os sons no filme são diegéticos, ou seja, pertencem ao mundo da história contada. O diretor utiliza boleros, merengues, mambos e canções flamengas, interpretadas por grandes artistas latinos, dentro do filme ou fora de cena e segundo a pesquisadora da Universidade de Salamanca, Dra. Matilde Olarte, em palestra proferida em 2002 na Holanda comentou que:

As canções de Almodóvar participam da composição do perfil dos personagens e fornecem ao espectador um índice de “latinidade”, ou mais precisamente, de um modo “latino” de expressar sentimentos e operam, por meio de letras, muitas vezes como uma espécie de fala cantada. Não é incomum encontrar em artigos e críticas sobre os filmes de Almodóvar comentários que atribuem ao fato de ele utilizar canções cujas letras trazem comentários poéticos das situações dramáticas o status de uma marca autoral importante (Revista Repertório, 2008, p.13).

Segundo Olarte, as canções cujas letras falam pelos personagens com acentuada característica popularesca foram produzidas durante os anos 40 e 60 do século passado e cantam sobre a dor do amor. A abertura do filme Mulheres à beira de um ataque de Nervos (1988) é comparável a uma ópera, na voz de Lola Beltrán que interpreta a música Soy Infeliz, que foi inspirada na canção mexicana composta por Ventura R. Armendarin (1913-1994) em 1969.

A letra da canção é uma síntese da natureza passional de um amor bruto da personagem, cuja singularidade do timbre da voz da protagonista, no seu monólogo, perpassa a eternidade dos silêncios de Ivan e atravessa o seu corpo, que sofre a exacerbação e a intensidade em cena e o jogo de máscaras do amante.

A música no filme segundo Martin:

(...) proporciona ao filme uma dimensão psicológica real que abre ao diretor a possibilidade de fazer conhecer os pensamentos mais íntimos e sutis de seus personagens sem o risco de cair na inverossimilhança e de colocar problemas de consciência impossíveis de exprimir a não ser pela palavra (...) (Martin, 2013, p. 209).

A letra da canção Soy infeliz, porque sé que no me quieres pode ser considerada uma síntese da natureza passional dessas mulheres e de seu amor bruto, cafona, deselegante. As dores de amor sem limites das personagens de Almodóvar e a presença da amargura nas mulheres coincide com o ponto de vista de diretor ao construir seus roteiros com um caráter insólito ao impor numa distorção quando incrementa o elemento irônico em relação ao sofrimento de suas personagens, que interdita a compaixão pela personagem, cujo sentimento é típico do melodrama hollywoodiano.

A aproximação entre os opostos, a relação entre o masculino e o feminino, a sinceridade de Pepa em confronto com a dissimulação de Ivan reflete também nas canções escolhidas pelo diretor para o filme. As músicas servem para sublinhar as características de uma mulher apaixonada e que carrega no ventre o filho do homem que a abandonou.

Pepa parece ser verdadeira por ser tão sincera e intensa, porque contém todas as riquezas e defeitos do espírito de uma mulher apaixonada. Ademais, o seu sentimento não é uma perturbação da sua mente, que exprime, ao lado da razão e da sensibilidade, uma terceira faculdade, elas pensam mesmo quando são abandonadas. O crítico Guinsburg de arte cita Almodóvar e suas personagens cômicas:

(...) as mulheres em crise propiciam as mais densas e cômicas situações dramáticas: elas têm menos pudor e medo que os homens para reagir diante da adversidade.  As mulheres de Almodóvar enfrentam as adversidades sem medo, e sem vergonha de mostrarem-se frágeis, ao passo que, no melodrama americano, as mulheres sofrem escondidas em seu mundo para não se envergonhar diante dos outros (Guinsburg, 2008, p. 385).

O filme, numa mistura de melodrama com a comédia, causa um efeito particular no espectador na medida em que a película junta o estilo screwball comedy com falas ligeiras, que combinam a performance da atriz Carmen Maura com a junção do teatro de Jean Cocteau criando uma mise-en-scène, que envolve uma teatralidade melodramática.


Considerações finais

O diretor é contra seguir um único gênero cinematográfico, ele prefere revisitá-los e traça uma estratégia de fluidez, onde é possível o diálogo entre os vários gêneros cinematográficos hollywoodianos e estabelecer as conexões entre as várias histórias, que compõem a narrativa para que o argumento se multiplique a partir de um tema central.

O elenco feminino de Mulheres à beira de um ataque de nervos busca a realização no amor mesmo que isso signifique ter que queimar a cama, num ato de protesto e no tom dramático e teatral bem ao gosto de Almodóvar. O amor rima com dor e pode estar envenenado pelo sentimento da traição, do desejo de vingança, cujas paixões femininas no universo ficcional de Almodóvar são exageradas como as narrativas de um folhetim antigo. 

Seus anti-heróis, nunca santos, no seu mundo almodovariano, relembra o espectador dos melodramas de Hollywood dos anos de 1950 e 1960, que ele tanto se inspira. O cinema de Almodóvar também tem elementos de sua vida pessoal e não deixa de ser uma reconstrução do passado na Espanha, a partir da percepção social e num contexto do qual se apresenta como um reflexo de uma sociedade em transformação, que começa a olhar para o passado da ditadura.




Texto extraído da tese de doutorado: As mulheres no cinema de Pedro Almodóvar e a reinvenção do melodrama hollywoodiano – Rosângela D. Canassa – 2018.

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