A CONSTRUÇÃO DO CINEMA DE PEDRO ALMODÓVAR NO CENÁRIO CULTURAL PÓS-FRANCO
O cinema de Pedro
Almodóvar Caballero (1949) foi influenciado pelas revoluções sociais, políticas
e culturais de seu país e as suas reminiscências do passado, que remetem ao
período da ditadura, na medida em que o diretor interpreta fatos, lugares e
situações. A ditadura ocorreu durante o período do governo de Francisco Franco
Bahamonde (1892-1975), que atuou como chefe do Estado no período de 1936 a
1975, resistindo à Segunda Guerra Mundial e criando um estado católico e
autoritário e que recebeu o nome de franquismo.
Nota-se que Almodóvar ao
retomar os temas do passado franquista o fazia primeiramente como uma forma de
negação, recusando-se a mencionar o nome do ditador em seus filmes.
Posteriormente, ao refletir, ele percebe que ao se confrontar com o inimigo
estaria diante de uma possível forma de derrotá-lo por meio de sua
transgressão, ainda que fosse na ficção. Da mesma maneira, simbolicamente,
trata-se de uma vingança contra Francisco Franco, visto como um fantasma que o
assombrava e verifica-se que as memórias deste passado foram retratadas por
meio das narrativas e das personagens, bem como preenchidas pelo seu imaginário
espanhol, sendo que as grandes modificações histórico-sociais presentes em cada
tema assumem o aspecto de um retrato da história recente da Espanha,
refletindo-se no imaginário abrangente do espectro de Franco.
Além de resgatar a memória cultural de seu país, ao revisitar um período histórico vilipendiado pela ditadura franquista, o cineasta apresenta em seu cinema novos olhares em relação à Espanha por meio de cores brilhantes nos cenários e nos figurinos, demonstrando-se, assim, a originalidade de sua obra. Outro aspecto importante na sua estética cinematográfica é o modo intuitivo de fazer seus filmes, reinventando os gêneros existentes como o melodrama hollywoodiano. Ao lado disso, verifica-se também que ele defende a ideia de um cinema híbrido, ao buscar a sua própria autonomia estética desenvolvendo sua forma criativa de produção, que inclui o uso da metalinguagem e da autocitação, sem perder a originalidade dos seus filmes.
O seu trabalho com a câmera é realizado por meio da aproximação entre os seus filmes e o cinema de outros diretores, mesclando o seu envolvimento pessoal e afetivo junto à própria obra e remonta a uma palavra grega, poiésis, utilizada por Platão, que sugere a criação de algo novo em que nada havia antes. Ademais, em cada produção sua, o espectador pode assistir a um filme cuja estética conta com personagens que vivem a poesia em forma de coreografia das paixões humanas. A própria obra fílmica traduz a sua percepção da vida e a sua forma de se relacionar com o mundo, num exercício de imaginação por meio do cinema, o qual consiste na mistura entre o passado, o presente, o subjetivo e o objetivo, o imaginário e a realidade.
Este capítulo teve como
objetivo apresentar como transcorreu o desenvolvimento criativo de Almodóvar em
relação à sua estética cinematográfica com as influências dos movimentos da
contracultura da Movida Madrileña e
da Pop Art nas suas primeiras obras,
cujo discurso inicial estava inserido nos padrões da Movida, com o seu caráter provocador,
que estão presentes nos seguintes filmes: Pepi,
Luci, Bom e outras garotas de montão
(1980), Labirinto de Paixões (1982), O que fiz para merecer isto?! (1984).
O período da Transição e
a conjuntura política da abertura democrática impulsionou o diretor imbuído de
sua liberdade criativa e anárquica de celebrar a sexualidade e a transgressão
como um modo de vida de suas personagens em suas narrativas.
1.1 O processo de mudança e o cinema de Transição na Espanha:
a fotografia como metáfora
F. 1 - A cantora Alaska em Madri em 1981
Fonte: livro Cinematógrafo: um olhar sobre a História, p. 425
A
imagem capturada em 1981 foi utilizada pelo historiador Mario Díaz Barrado para
explicar a Espanha da Transição, com o objetivo de elucidar o processo de
mutação da sociedade espanhola e a convivência de duas maneiras de ser e pensar que estão obrigadas a entender-se em favor de um
processo aberto, mas muito instável como explica Nóvoa: “(...) não há uma imagem que melhor explique a sociedade de finais
dos anos 1970 e início dos anos 1980 que a aludida, na qual se retrata a
convivência de duas maneiras de entender a vida: o passado e o futuro unidos
pela mudança e o olhar para diante” (Nóvoa, 2009, p. 425 – 426).
O
cinema provavelmente é o veículo de comunicação que se transforma no melhor reflexo
de uma sociedade em transformação que começa a olhar o passado, mesmo que seja
de soslaio, e a criticar o sistema imposto mesmo que seja através de alusões
visuais e cenários carregados de simbolismos. O
espaço cinematográfico era também um meio adequado para expor as ideias
próprias da mudança, que estavam surgindo com as propostas e novas tendências
de diretores como: Luis García Berlanga e o filme Bienvenido, Mr. Marsahll (1953), Juan Antonio Bardem e Luís Buñuel
com o filme Viridiana (1961), cuja obra
foi considerada um insulto ao Cristianismo.
F. 2 - A atriz Silvia Pinal como Viridiana (Luis Buñuel, 1961)
Fonte: revista Bravo, 2008, p. 50
O
objetivo desses cineastas era de eliminar todos os tipos de filmes de caráter
histórico-político anteriores, visando também se esquivar da censura durante o
franquismo para adaptar a linguagem cinematográfica para fins políticos
oferecendo uma visão realista e aguda da Espanha no pós-guerra como Nóvoa
explica: “(...) em sua busca crítica da realidade circundante; pois
deliberadamente para envolver-se sua denúncia sócio cultural” (Nóvoa, 2009, p.
347).
O autor acrescenta que, a
repressão política do período e a censura vislumbra-se no complexo mundo visual
do cineasta Carlos Saura, que leva o espectador a diferentes níveis de leitura
e numa sólida estrutura narrativa, uma mais naturalista, através do estudo da
psicologia dos personagens e outra metafórica, através de contínuas alusões à
situação política e social da Espanha do momento, como o de recorrer ao Sol e
ao calor, que surgem como personagens encarnando a figura do franquismo e a
pressão política respectivamente.
Essa estrutura mostra, de
maneira oculta, a mensagem pretendida por Carlos Saura, conforme citado por
Nóvoa:
Eu, em meu
cinema, uso determinados componentes políticos um pouco como reflexão do que eu
vejo em minha vida todos os dias. Um elemento básico, fundamental, um pano de
fundo sempre presente, entre outras coisas porque é minha vida, porque estou na
Espanha de 1974. Então, formulado assim, é
impossível não fazer um cinema político, como o é não fazer um cinema humano,
ou é impossível não fazer um cinema de sentimentos, ou é impossível fazer um
cinema sem imagens. Em meu cinema, o político está como fundo, gravitando em
segundo plano sobre os personagens. O que sucede, e pode ser que seja muito
otimista ou muito ingênuo, é que se eu faço cinema, se eu reflito uma série de
problemas, é porque me interessa profundamente, e penso que por essa razão, se
me interessa, tem que interessar a outras pessoas (apud Nóvoa, 2009, p. 427 –
428).
Segundo Carlos,
Quando se pensa
num sentido político de cinema, sobretudo de filmes de resistência a regimes
autoritários é indispensável se lembrar de parte da obra de Carlos Saura, sendo
que a fase mais rica foi quando ele revelou aos olhos do mundo na forma de
metáforas e alegorias, a supressão da liberdade imposta pela ditadura de
Francisco Franco. Nesta época surgiam as reformulações estéticas no cinema que
simultaneamente percorria os países tais como na França (Nouvelle Vague), na
Inglaterra (Free Cinema), no Brasil (Cinema Novo), no Japão (Nuberu Bagu,
adaptação para a língua japonesa da Nouvelle
Vague) e no leste europeu sob o controle fechado do regime soviético
(Carlos, 2011, p. 15).
O
historiador francês Marc Ferro (2009) salienta que o cinema pode ser analisado
como um instrumento de pesquisa para a reconstrução do passado, objetivando
trabalhar a história no cinema com a intenção de construir discursos históricos
que levem em conta algo fundamental, conforme citado por Nóvoa:
(...) não só reflete a realidade, mas
revela a realidade, inclusive de maneira indireta e além da vontade de seus
criadores. Assim, um filme, particularmente de ficção, é importante tanto pelo
que diz como pelo que oculta e tem um valor de documento histórico. No entanto, habitualmente, o cinema foi ignorado desde a
perspectiva da ciência política, da mesma forma que outros canais que, de
maneira indireta, se transformaram em formas de expressão. É o que
Denis-Constant Martin (2002) denomina OPNI (objeto político não identificado) (apud
Nóvoa, 2009, p. 409).
O cinema da Transição de Almodóvar não apresenta nenhuma conotação política, ele apenas demonstra como as influências dos traumas que seu país enfrentou e resistiu ao medo da repressão e da censura, os filmes buscam fazer um aceno de paz ao seu próprio país por meio de seu cinema e ao participar intensamente do movimento da La Movida Madrileña, durante este período, cuja proposta era mostrar as diferenças entre a velha sociedade franquista e a era democrática.
1.2 La Movida Madrileña: um grito de liberdade e a influência da
Pop Art nas primeiras obras fílmicas
Fonte: El Deseo.com – acesso em 18.04.2017
O movimento da Movida Madrileña foi embalado pela
liberação cultural e sexual e expressa a liberdade em Madri, durante o período
de 1975 a 1989, e foi fundamental no campo artístico para estabelecer novos
alicerces ao país aberto à democracia e se desenvolveu em algumas cidades tais
como Barcelona, Madri e Vigo. Os seguidores não chegaram a levantar nenhuma
bandeira política, pois não tinham outras pretensões a não ser aproveitar a
vida e romper com o tradicional, em oposição ao regime fechado que vigorou na
Espanha por tanto tempo.
Segundo Hidalgo:
Os atores são
seus amigos do mundo underground de
"La movida madrileña" e o circuito de apresentação são os bares,
boates, clubs e teatros de Madri e Barcelona. (...) Uma colaboração que foi
influência fundamental na obra de Almodóvar foi o contato nos anos 70 com Ivan
Zulueta, cineasta que representava a própria vanguarda dentro do cine underground madrileno, e que já tinha um
extenso currículo dentro da experimentação imagética com seus curtas (...), no
qual Almodóvar colaborou, inclusive fazendo figuração em uma cena eliminada na
montagem, e colocando voz numa das personagens femininas (Hidalgo, 2007, p.
37).
Iván Zulueta (1943-2009)
conforme citado pelo autor é conhecido principalmente por seu trabalho com
Almodóvar na feitura de alguns cartazes como nos filmes: Labirinto de Paixões, O que
fiz para merecer isto?! e Maus hábitos. O artista inseriu na sua
estética os elementos do kitsch, as cores saturadas e o mundo dos quadrinhos,
cuja origem é da Pop Art, da qual
Almodóvar também se apropriou para o seu cinema.
Importante frisar ainda
que, a estabilização política do pós-guerra nos Estados Unidos recaiu sobre os
costumes da época como o gosto do kitsch, e era de bom tom colecionar objetos
irrisórios implantados pela Pop Art.
O termo foi criado pelo crítico
britânico Lawrence Alloway em 1958, na Inglaterra, destacando: “(...) comer
salsichas e beber Coca-Cola. A trivialidade tornou-se um assunto de interesse
geral e abordado por todas as classes sociais impulsionando a estética underground como a maior transformação
cultural” (Osterwold, 2013, p. 07).
Segundo Osterwold, o
objeto de consumo transforma-se em arte e alguns críticos rejeitaram as
técnicas da arte comercial considerando-as anti-arte. A estética da Pop Art mergulhou na trivialidade, na
cultura de massa, no mundo das celebridades e na sociedade de consumo para
levar a arte e a propaganda, a sedução pelo produto como as latas de sopa Campbell e o vestido feito de papel,
ambas obras do artista Andy Warhol, considerado o representante célebre desse
movimento e um dos nomes mais conhecidos dos anos 60 nos Estados Unidos.
F. 4 - A lata de sopa Campbell - 1962 - Museu de Zurique e o vestido de
papel fabricado e vendido pela Campbell´s Soup Company inspirado na série
criada por Andy Warhol
Fonte: revista Vestidos Eternos, p. 216
Warhol adotou a
serigrafia como recurso tecnológico adequado à realização de suas obras, que
auxiliaram o artista na manifestação de sua crítica à sociedade norte-americana
e também transformou o objeto do cotidiano e a sua repetição explicitando o
excesso do consumo desenfreado. Em relação às suas obras sobre mulheres famosas
e à maneira de Marilyn Monroe com as bocas realçadas, o artista mantinha um
caderno com modelos de lábios nas mais diversas configurações.
F. 5 - Marilyn Monroe – Andy Warhol – 1964 - Museu de Arte Moderna de
N. Iorque
Fonte: capa do livro Pop Art, 2013
A repetição de Warhol nas
imagens femininas em série aponta para uma crítica à massificação e uma
banalização de sua feição quando posta em série, tanto das figuras das estrelas
como das donas de casa retratadas nos templos de consumo do supermercado,
causando o esvaziamento das imagens. A América nos anos 50 propõe questões do
corpo feminino misturado à erotização do consumo e da mercadoria e Marilyn
Monroe, uma representante do star system hollywoodiano, na última entrevista de
sua vida disse: “Este é o problema, um símbolo sexual torna-se uma coisa e eu
odeio ser uma coisa. Mas se eu for me tornar um símbolo de alguma coisa, eu
prefiro que seja de sexo” (Kaplan, 1995, p. 91).
As garotas do calendário
ou pin-ups originadas nas artes gráficas se confundem com a mulher comum. Elas
surgem nas atividades cotidianas realizando trabalhos domésticos, maquiadas e
de salto alto, que cuidam da casa, do homem, do lar e das crianças. As suas
figuras foram feitas para o consumo do olhar masculino e no cinema algumas
atrizes também assumem o estereótipo. Durante os anos de 1950, a cultura pin-up
em grande medida é responsável por agregar um caráter erótico e de glamour à
lingerie, ora desvendada sob a roupa, ora a última peça a cobrir o corpo. E
quando usam o avental junto ao vestido demonstram um símbolo de um serviçal
sexy numa mistura com a figura da dona de casa perfeita para casar. A
divulgação das imagens em jornais, revistas e calendários são importantes
porque elas são responsáveis pela primeira aproximação entre a imagem pública
da mulher e da vida doméstica na publicidade.
As aproximações
estabelecidas entre Marilyn Monroe e as pin-ups ocorreram porque a revista
Playboy e outras revistam apresentavam mulheres nuas ou seminuas e ganharam uma
ampla circulação nos Estados Unidos. Em 1953, a revista Playboy publicou seu
primeiro exemplar com fotos da atriz Marilyn Monroe totalmente nua e que já
fazia o sucesso de uma estrela. O pós-guerra verá o apogeu da atriz, que foi
vítima de sua própria glória e beleza depois de tornar-se um fenômeno mundial.
Sobre o registro
fotográfico à maneira das pin-ups o fundador da Playboy, Hugh Hefner, comenta
em 1953:
O conceito por
trás das playmates que crei para a
Playboy eram as pin-ups. Inventei o pôster central, um folder de três páginas
no centro da revista, que as pessoas abririam e seria algo sexy. (...) a
mensagem era que aquelas lindas garotas gostavam de sexo também (Nazareth,
2007, p. 76).
Conclui-se que, tanto no
cinema como na publicidade, o feminino é explorado com a sua sensualidade e o
seu corpo como o eterno objeto de desejo, bem como nos primórdios da Pop Art, que se apropriava das imagens multiplicadas em massa pela
publicidade e pela mídia como na obra O
que torna os interiores das casas de
hoje tão diferentes, tão sedutores? (Richard
Hamilton, 1956). A primeira obra a ser intitulada como pop é a colagem do
artista, que foi exibida na exposição This
is tomorrow do Independent Group montada
em 1956 na Whitechapel Art Gallery,
em Londres. A exposição trouxe um pôster composto de colagens de revistas com a
figura do halterofilista e da pin-up, que pode resumir o que é Pop Art.
A mensagem contida na
colagem de Hamilton é interpretada como sendo uma realidade na qual tudo está
ligado ao mundo das aparências, do consumo, do visual em que os objetos do
cotidiano são dispostos de uma forma dinâmica, porque os artistas e suas
invenções apresentavam as mudanças em relação ao paradigma da arte, ao mesmo
tempo em que revelavam um novo olhar sobre os objetos inscritos no cotidiano.
F. 6 - O que torna os interiores das nossas casas de hoje tão
diferentes, tão sedutores?
Richard Hamilton –
1956 – Museu Kunsthalle Tubingen, Alemanha
Fonte: livro Pop Art, p. 65
O status da arte se
modifica e seu sinônimo como o belo, o único, o original serão ambivalentes
numa cultura em que nada é estável e permanente; nesse sentido:
A ordem da arte
não é única e imutável, os seus sistemas podem ser irreversíveis e
indeterminados. E não só a ordem da arte (...), mas também a ordem global da
cultura. O universo cultural apresenta-se no fragmentário e originado por
estruturas contraditórias, que convivem perfeitamente ao mesmo tempo (Calabrese,
1987, 168).
Segundo Calabrese, a
ordem da arte não é única e permanente e possibilita que o universo da Pop Art por meio dos spots
publicitários, do mundo dos HQs e seus autores exerçam um efeito profundo tanto
na história da arte bem como no cinema. A estética cinematográfica
almodovariana explora a estética pop juntamente com a estética da Movida.
Nesse sentido, Almodóvar
buscou a inspiração para a linguagem visual de sua filmografia nos elementos da
indústria cultural e também nos spots
publicitários, que surgem no filme Pepi,
Luci, Bom e Outras Garotas de Montão
(1980), quando se referem às calcinhas femininas íntimas criadas pela
personagem Pepi (Carmen Maura) para dar mais conforto às mulheres.
F. 7 - Cartaz do filme Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980)
Fonte: El Deseo.com – acesso em 13.01.2017
Segundo Hidalgo:
Deve-se lembrar
que, desde 1978 Almodóvar estava rodando, nos finais de semana, durante a noite
e em qualquer tempo livre, seu filme de estreia no circuito comercial Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón,
que a princípio ia chamar-se Erecciones Generales, e só foi terminado em 1980 com
a entrada da produtora Fígaro Films no projeto, que possibilitou a passagem da
película de 16 para 35 milímetros. Vale destacar uma crítica de 1979 que
comenta, com riqueza de detalhes, a obra de Almodóvar (Hidalgo, 2007, p. 37).
As personagens femininas
deste filme são tratadas como alegorias, na qual três mulheres de diferentes
idades e que moram em Madri passam por situações diferentes em torno da própria
sexualidade, segundo Nóvoa:
(...) o filme
também sinaliza a intenção de Almodóvar de confrontar os poderes caducos da
sociedade espanhola com o seu estilo e ao tratamento subversivo em relação à
postura de suas personagens (...) e já demonstrava a segurança em um porvir
estável, que tinha pouco a ver com a ditadura, a qual começava a ver-se como algo
distante e caduco (Nóvoa, 2009, p. 417).
Segundo o autor, as
personagens femininas apresentadas no filme Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980) refletem nos seus comportamentos inesperados
a vontade de chocar e ferir susceptibilidades, com a intensão da abolição dos
tabus. A emancipação da mulher e a sua sexualidade vista com naturalidade
repercutem em toda a sua cinematografia, sendo que as mulheres e suas
narrativas são livres de qualquer moralismo e carregam o conteúdo cultural
represado por meio de suas performances em cena.
O seu corpo vai se
rebelar contra as coerções sociais impostas à sexualidade nos tempos de Franco
via temáticas do feminino, do travestismo, do voyeurismo e do exibicionismo,
que evidenciaram a maneira irônica do diretor para questionar os valores
vigentes deste período na Espanha. Nos primeiros longas-metragens torna-se
visível como o emblema do movimento da Movida
tentava romper com um passado de censura, da repressão e da intolerância e a
sexualidade de suas personagens, que são características do vir a “ser”
impulsionados pelos desejos e contra os conceitos normativos e tradicionais da
sexualidade.
O diretor desarticula as categorias de feminino e de masculino
destituindo-os de lugar, cabendo as suas narrativas como portadoras de um novo
caminho para as diversidades sexuais. Aliado ao “espírito pop” da subversão em conjunto com a Movida os movimentos da contracultura auxiliaram-no numa leitura da cultura e da tradição de seu país
reforçando as mutações, que formam um ideário a respeito dos produtos de
consumo e as suas características, que aderem aos temas do efêmero, da
trivialidade e do cotidiano.
F. 8 - Almodóvar e Carmen Maura
Fonte: El Deseo.com – acesso em 06.08.2016
Almodóvar conservou este
aspecto transgressivo como uma força emblemática em suas primeiras obras e os
personagens considerados marginalizados pela sociedade como as prostitutas, os
homossexuais, os drogados, ou seja, aqueles que pertencem à margem da sociedade
e aludem o tipo trazido da Pop Art
como: “os novos vulgares evocando os mastigadores de chicle e delinquentes que
o pop trazia como uma nova
manifestação da cultura da cena americana ou do realismo social” (Osterwold,
2013, p. 219-220).
O filme Labirinto de Paixões (1982) rodado
durante os anos de ouro da Movida mostra
os jovens, o consumo de drogas e a busca do prazer imediato, que refletia as
características e os excessos da contracultura, bem como nos personagens
criados por Almodóvar, que interferiram de forma indireta na trama e sem o
interesse a qualquer julgamento do diretor em relação aos seus personagens e
seus comportamentos. A participação especial de Almodóvar como o diretor de
fotonovelas no filme vai se reunir com aqueles que participaram do movimento da
Movida e que são inseridos como atores não profissionais, porque os artistas
depois das filmagens não tinham certeza se receberiam algum salário.
A estratégia do diretor
da combinação da atuação de atores profissionais e não profissionais denota o
seu jeito inicial de fazer cinema por meio de suas experimentações artísticas e
aliado ao fato de que tinha poucos recursos financeiros para a produção dos
filmes. De qualquer forma, ele conseguiu transportar para as telas os temas
polêmicos da sexualidade, num ritmo arrojado e sem faltar às excentricidades,
às estranhezas e quase ao inverossímil.
F. 9 - Almodóvar e os atores de Labirinto de Paixões (1982)
Fonte: El Deseo.com – acesso em 06.07.2016
O diretor, na sua busca
por novas formas de experimentação no ambiente underground nas suas primeiras experiências cinematográficas,
envolve as tessituras do desejo que acabam formando múltiplas formas de representação,
sendo que nenhuma delas é privilegiada como no filme. Durante o período de 1970
a 1980, os filmes apresentam os desejos que se acomodam nos personagens como em
Labirinto de Paixões (1982), que
Almodóvar define como: “uma espécie de ‘celebração do desgoverno’, que reinava
na Espanha no início dos anos 80” (apud Cañizal, 1996, p. 67).
Em relação aos figurinos
em Labirinto de Paixões (1982) ocorre
a revalorização do estilo do kitsch, conforme a vestimenta com peles de Fanny
MacNamara (Fabio MacNamara) e a moda punk com as suas roupas totêmicas, que são
símbolos próprios dos ideais de cada personagem e do seu engajamento político
(mesmo inconsciente), que explora o poder provocador como uma forma de
contestação.
F. 10 - A moda punk em Labirinto de Paixões
Fonte: google.com – acesso em 19.03.2017
A partir do tom irônico e
as suas ações, as personagens sinalizam ao espectador a mobilidade desenfreada
que vai além das fronteiras do “normal” juntando-se com as narrativas e os
cruzamentos de linguagens, as ambiguidades sexuais nunca foram buscadas de
maneira tão sistemática conforme ressalta Cañizal:
(...) o
amálgama polifônico de Almodóvar não só preserva as ambiguidades e contradições
que constituem a riqueza intertextual de seu cinema. Ele vai além. Sua riqueza
maior está exatamente no diálogo que ele estabelece com o mundo (Cañizal, 1996,
p. 62).
O cineasta espanhol
mostra a sua face múltipla, de camaleão, quando se traveste de mulher e canta
em bares, escreve para jornais e revistas, relaciona-se com o grupo teatral Los Goliardos e organiza happenings em galerias de arte, cujas
atividades simbolizavam a sua fase experimental, que combina com o movimento
cultural plural, mutante e diversificada da Movida
Madrileña.
Durante a
década de 80, os loucos, entusiasmados, criativos, e às vezes imprudentes,
moldaram o estado de espírito, que tomou conta de uma parte da juventude
espanhola e tinha a sua sede em Madrid. La
Movida, um movimento espontâneo, que dizimou não só o puritanismo da ditadura,
mas também o puritanismo estético dos jovens que lutaram contra ela (Almodóvar,
2012, p. 25).
Os movimentos da
contracultura auxiliaram-no na leitura da tradição de seu país e nas mutações
no universo cultural e cinematográfico, que resultou na construção de uma
estética cinematográfica que aborda os produtos de consumo, da publicidade, do
efêmero e do cotidiano como no filme O
que fiz para merecer isto!?
(1984), que oferece uma visibilidade aos produtos utilizados pela protagonista,
que mantém a construção na forma da obra pop. A apropriação da forma pop é a
soma dos efeitos visuais dos seus filmes, a mistura com os meios de comunicação
de massa, o diálogo com os comerciais de TV, o videoclipe e o próprio cinema.
Os spots publicitários
apresentados em seus primeiros longas-metragens e na forma de comercial repetem
a mesma receita de Warhol ao indagar através da Pop Art a respeito da emergência consumista, que o artista desafia
por meio do sistema montado para atrair o público e o espectador.
Segundo Calabrese:
(...) um spot
publicitário assemelha-se hoje com frequência a um vídeoclip (...) nada mais é
do que uma soma de efeitos visuais provenientes da música, da televisão, da
publicidade e da arquitetura: um teatro de superfície, um teatro das conjunções
intertextuais (Calabrese, 1987, p. 71).
O que Almodóvar sugere
por meio da publicidade inserida nos primeiros filmes é que este tipo de
consumo robotizado leva o espectador a dimensionar os modos de consumo na
sociedade e exemplifica nas cenas, quando recorre ao ato do consumo de Glória
(Carmen Maura) e os seus detergentes, que vai além da robotização. O filme
revela uma dona de casa infeliz, que tem que sobreviver a uma abstinência de
remédios para dormir enquanto lida com os problemas de sua família e um marido
machista. A personagem inconformada com a vida doméstica e o seu trabalho como
faxineira e é viciada em produtos de limpeza. O melodrama retrata a mulher da
Espanha representada na figura de Glória, no período pós-franco, que ainda vive
o desconforto de não poder dar conta da opressão feminina no lar e na
sociedade.
F. 11 - Glória (Carmen Maura) no filme O que fiz para merecer isto?!
Fonte: El Deseo.com – acesso em 13.01.2017
A incorporação neste
filme da figura do lagarto, que surge no cartaz de Ivan Zulueta e a sua
transformação em animal doméstico aponta para algo no mínimo estranho. O animal
chamado de “dinheiro”, correspondendo ao papel verde e brilhante de uma nota de
dólar e evoca a obra Two Dollar Bill
(1962) de Andy Warhol.
A obra de Warhol e a
tematização da nota de dólar como por exemplo, atrai para si uma a aura do
dinheiro e da própria América como um ícone deposto na nota e que engloba a
nação como uma metáfora nacional e social que unifica os indivíduos e a
comunidade (Osterwold, 2013, p. 34).
F. 12 - Cartaz do filme O que fiz para merecer isto?!
Fonte: El Deseo.com – acesso em 13.01.2017
A analogia da obra citada
de Warhol com o lagarto chamado ‘dinheiro’ no filme O que fiz para merecer isto?!
decorre de uma percepção da semelhança entre os dois objetos em planos da
realidade, mesmo distintos entre si, de forma que é possível admitir uma
releitura e que se aplica como uma experiência perceptiva dos objetos em que o
espectador é suscetível de ter como uma metáfora.
A prosperidade em termos
financeiros, que os personagens tanto buscam no filme têm efeito na metáfora da
pele do animal verde e brilhante, que corresponde ao dinheiro e enfatiza também
a dimensão crítica e subversiva da Pop
Art, que interpreta os objetos
como signos das coisas e pessoas da sociedade de consumo americana, conforme
explica Vanoye (2008, p. 302).
F. 13 - Serigrafia Two
Dollar Bill – Andy Warhol – 1962 - Colonia – Museum Ludwig
Fonte: livro Pop Art, p. 37 e a colagem do lagarto do filme
A obra almodovariana e a incorporação de um elemento discursivo a outro ocorre quando o diretor/roteirista constrói seus filmes e utiliza-se de textos, imagens e obras de arte como uma forma de reverência, de complemento entre texto e imagem. Os processos e mecanismos de suas criações afirma um diálogo com a estética do cinema contemporâneo e diz respeito não só à imagem, a mistura de meios audiovisuais (imagem e som), com outros discursos literários, poéticos e plásticos, como um meio sem fronteiras, quando o diretor lança mão de recursos existentes gerando uma pluralidade nas suas obras (texto extraído da tese de doutorado da autora; a tese intitulada As mulheres no cinema de Pedro Almodóvar Caballero e a reinvenção do melodrama hollywoodiano - 2018 Mackenzie).













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