Carne Trêmula: matrizes culturais em Pedro Almodóvar

 



Carne Trêmula se passa em Madri, em janeiro de 1970 e uma prostituta tem um filho no ônibus, quando tenta chegar à maternidade. Após vinte anos, o filho cresce e está começando sua vida adulta, quando tenta se encontrar com Elena, uma desconhecida com quem uma semana antes de ser preso teve um fugaz encontro. O filme faz referências ao ditador Franco, quando a prostituta começa a sentir as contrações do parto e auxiliada pela cafetina Centro (Pilar Bardem – mãe de Javier Bardem), Isabel dá à luz a um filho no ônibus que iria leva-la ao hospital.

O filme foi baseado no livro Carne Trêmula (ou Carne Viva), da escritora inglesa Ruth Rendell, especialista em romances policiais. O livro ganhou a adaptação de Almodóvar que levou a história para Madri.O cineasta tentou esquecer o passado, mas ele está impregnado em suas memórias e o diretor reconsiderou ao dizer: “Hoje é bom não esquecer esse tempo e lembrar que ele não está tão longe (...)”. (Strauss, 2008, p. 206)

A ditadura de Francisco Franco e a desconstrução da imagem midiática do Caudilho na Espanha, os anos de silêncio da expressão artística e o período de Transição são matrizes culturais na obra de Almodóvar. A história ancestral da Espanha conta com a Inquisição, a violência, assassinatos, estupros e torturas na ditadura, no período de 1936 a 1975.

Almodóvar olha para este passado como um adolescente rebelde, que deseja contrariar o “pai” mesmo que já esteja morto. A sua transgressão decorre simbolicamente de uma vingança contra Franco. Depois da ditadura é possível compreender como se forma a estética cinematográfica deste diretor, que reflete em suas narrativas e personagens, o imaginário espanhol e suas grandes modificações históricas e sociais.

O passado deixou registros importantes no cinema espanhol, cujo material cinematográfico aborda a Guerra Civil Espanhola nos filmes de Carlos Saura, Berlanga, Chávarri, Martín Patino e Ken Loach, que produziu o filme Terra e Liberdade em 1995.

O povo da Espanha está dentro dos filmes de Almodóvar através de suas temáticas tais como: as manifestações simbólicas encontradas pelo cineasta como a cidade de Madri, os deslocamentos das personagens do campo para a cidade, a estética de cores berrantes, os costumes, o sincretismo religioso espanhol como altares, conventos, confessionários, etc.

A versatilidade de Almodóvar tem outra característica de sua estética, que parte das suas tradições culturais: “Ele reelabora e transcreve para um universo original alcançando a admiração e difusão universal, segundo (Varella, 2005, p. 56).

A Madri de Almodóvar cobre um arco de tempo que vai desde o pós-franquismo dos anos 80 até o período contemporâneo e as transformações sofridas pela cidade e as suas configurações culturais trazem na bagagem o colorido do povo, a sua maneira de viver e que se revela em seu cinema.


Rosangela Canassa

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