Luís Buñuel e Pedro Almodóvar: em busca dos obscuros objetos do desejo e a intertextualidade
“(...) é onde triunfa o incondicionado desejo erótico na sua declamada
provocação. O recalcamento emerge, flutua; o objeto do desejo revela-se,
impudico, chocante, imoral, na ausência de qualquer controle” (Uzzani, 2011, p.
145).
Resumo: Abraços Partidos
(Almodóvar, 2009) evoca o filme A Bela da
Tarde (Buñuel, 1967), que traz um elemento intertextual referente ao
passado de Lena (Penélope Cruz) como uma prostituta de luxo, que é semelhante à
de Séverine (Catherine Deneuve). O diretor manchengo apresenta a sua estética
pop e surrealista numa verdadeira alucinação e também ao combinar a construção
da narrativa com a anexação de intertextos. A finalidade deste trabalho é de
demonstrar que, tanto nas narrativas de Buñuel como de Almodóvar, ambos
diretores buscam pelos obscuros objetos do desejo em relação às suas mulheres
inacessíveis. A pedra angular da racionalidade humana perde o seu poder diante
do louco amor.
Rosângela D. Canassa
ABRAÇOS PARTIDOS
Pedro Almodóvar (1949), após
os anos de 1980, a sua estética cinematográfica foi se consolidando com a
junção de vários elementos como as construções melodramáticas em suas
narrativas, o enfoque nas personagens femininas e a influência dos movimentos
da contracultura da Pop Art e da Movida Madrileña na Espanha, que
exerceram um efeito profundo na estética cinematográfica do diretor espanhol.
Em Abraços Partidos (2009), o diretor constrói o filme a partir da
justaposição da comédia e do melodrama num jogo de estilos. A narrativa é sobre
a vida do presente e do passado da personagem Lena (Penélope Cruz), que
consegue um emprego como atriz e se apaixona pelo cineasta, porém quem produz o
filme é o próprio marido, Ernesto Martel (José Luis Gómez), que ao descobrir a
vida dupla da mulher e a existência do amante encomenda a sua morte.
A experiência do amor
interditado causado pela morte da heroína serve de mote para o diretor
desenvolver o tema do amor impossível e como esse sentimento se expressa em
suas personagens. Segundo Strauss em entrevista com Almodóvar ele escreve:
“Estar ligado ao Outro, o encontro a dois, uma fusão simultaneamente amorosa e
amniótica (...), é o âmago da questão que todas as personagens de Almodóvar
carregam na indiferença, no prazer ou na dor” (Strauss, 2008, p. 11).
A experiência do casal de
apaixonados é transformadora, na medida em que o desejo arbitra as suas vidas,
numa existência sem limites. O gozo é o princípio e o fim. E o trinfo da morte
e da dor andam de mãos dadas em um mundo imaginado. Esse amor louco se
manifesta de forma egoísta e violenta, cuja experiência é explosiva,
desmesurada, que pode aquecer, mas também pode destruir.
O ciúme doentio do milionário
e produtor de Las Chicas y Maletas, numa espécie de
filme dentro do filme, provocou a morte de Lena e como dizem os surrealistas o amour four se instala um ponto de vista
crítico e traz à luz uma realidade na forma do sarcasmo e do grotesco. A
paródia fica por conta da moça contratada por Ernesto como leitora labial e
insere o riso, o cômico, que se mistura ao melodrama.
O amour four é presente nos filmes de Almodóvar como em Matador (Almodóvar, 1999); Diego (Nacho
Martinez) é um toureiro aposentado que assassina as suas amantes e depois
enterra as mulheres no seu jardim, onde nascem cogumelos. O protagonista age
conforme as suas forças mais selvagens e instintivas e acaba se tornando um
anti-herói, um homem não virtuoso, cujas características não se submetem às
leis dos homens.
O amor em forma de revolta e
do inconformismo também atinge o personagem Ricky (Antonio Bandeiras) em Ata-me (1990). Ele rapta uma mulher para
um pacto matrimonial, enquanto na parede do seu quarto Jesus e Maria são
compostos numa gravura imitando a estética warholiana pop, que observa o casal
fazendo amor.
Os três personagens, Ernesto, Diego e Rick, formam
uma síntese do amor bandido, do amor louco, sem moralismos, mas que pode
levá-los a comportamentos extremos como a violência, a impetuosidade, que
impulsionam a ação anti-heroica. Essa condição do amour fou é fundamental nos roteiros de Almodóvar e Luis Buñuel
Portolés (1900-1983), que colocam o homem à mercê de suas paixões e desejos,
sem compromisso com a realidade e alude a ideia surrealista do amor.
O amor no Surrealismo, o que
realmente importa é o desejo concreto e egoísta, que movimenta os personagens e
traduz uma mensagem única: o amor acima de tudo. A realidade do objeto do
desejo é revelada como obscura e impossível de ser realizada e reflete nos
gestos frustrados e desesperados dos personagens tanto de Almodóvar como do
cineasta espanhol, que lhe servem como metáforas das paixões humanas e na
agressividade gratuita que o homem reconhece a sua natureza mais profunda.
Dessa forma, a leitmotiv nos roteiros dos filmes
citados são os sentimentos frustrados, que interferem na percepção do mundo de
cada personagem e que combina com a mensagem dos dois diretores em seus
roteiros de que não existe o amor sereno, equilibrado, o que vale é a exaltação
da paixão, não como sintoma da fraqueza humana, mas sim de vida.
O êxtase do erotismo é vivido
por meio de fantasias e convulsões onde o prazer ainda é possível e sem levar
em conta o moralismo e as regras sociais. Nesse sentido, significa que não é de
extirpar os sentimentos amorosos nas experiências de cada personagem, mas
mostrar que as paixões e os desejos são as forças anárquicas, que compõem a
realidade em cada filme. A pedra angular da racionalidade humana perde o seu
poder nos filmes de Almodóvar e Buñuel.
Mas, eles não poderiam ser
diferentes, no sentido provocativo e levando em conta o ambiente
histórico-social em que viveram, mesmo em tempos diferentes. Eles são
sobreviventes de seu país que sofreu a ditadura de Franco e substituem o herói
pelo anti-herói nas narrativas.
Os cineastas introduzem no
cinema o ‘não visível’ como o universo onírico e do inconsciente. O Surrealismo
apoia as ideias de Freud e sua ideia de sonhos, que não obedece a lógica e com
as rupturas, as fantasias seguem em buscam o obscuro objeto do desejo. O
onirismo, as visões provocantes não têm nenhuma coerência com a realidade ou
com a razão.
Buñuel e a figura feminina são
apresentadas como mulheres idealizadas ou são do tipo femme fatales como sugere o crítido Ado Kyrou:
O crítico estudou os filmes de
Buñuel e descreve o feminino buñuelano como um vírus. Ela é uma vítima com seu
lado perverso, portadora do mal, que leva de encontro com o perfil da mulher
bela e inocente, como Séverine em A bela
da tarde (Buñuel, 1967).
Segundo a autora E. Ann
Kaplan, a mulher submissa no cinema
clássico reflete as necessidades e o inconsciente patriarcal:
A estrutura cinematográfica do cinema clássico
hollywoodiano está repleta desta ideologia e que sustenta as estruturas
sociais. A forma pela qual o filme clássico produz significados em relação às
personagens femininas cristaliza estereótipos, que funcionam como uma forma de
opressão feminina sem considerá-la como um ser social e sexual (Kaplan, 1995,
p. 85).
Assim, o perfil feminino cabe
em vários filmes hollywoodianos, quando a mulher ultrapassa o seu papel social
já estabelecido. E essa existência insubmissa ao controle do patriarcado só
termina quando a personagem é morta ou é internada em hospital psiquiátrico,
como se ela fosse doente mental.
Em Abraços Partidos ocorre uma alusão ao filme de Buñuel, A bela da tarde (1967), de forma indireta existe uma citação da
personagem Séverine. Ela esconde do marido a sua vida dupla ao se
prostituir no bordel de madame Anaís. A jovem é infeliz com o casamento e só
consegue encontrar o prazer no bordel, onde passa as tardes realizando
fantasias sexuais com seus clientes. O seu figurino como o uso do vestido preto subjaz a um elemento intertextual
entre os dois filmes.
A personagem Lena e Séverine, a
conexão entre elas, não é apenas com a vida dupla, mas também o figurino. A
importância da vestimenta do personagem é a sua função de identificar e separar
da persona do ator que o interpreta, além de separá-lo de outros personagens da
galeria de interpretações do ator.
Lena após ser agredida por Ernesto ela vai
para as gravações de Chicas y Maletas e
surge numa cadeira de rodas e com roupa preta e óculos escuros. O seu figurino
faz uma alusão a Pierre (Jean Sorel), marido de Séverine. O figurino da belle de jour tem
um significado para encobrir os seus desejos mais obscuros, que talvez a
personagem não consiga perceber, segundo Fogg:
Contrastando com o seu papel de prostituta no filme A Bela da Tarde (1967), de Luis Buñuel,
a atriz francesa Catherine Deneuve usa roupas de aparente circunspecção, apesar
de o roteiro incluir dominação, sadomasoquismo e servidão. A sexualidade é
velada, não explícita, e é apenas sugerida pelo guarda-roupa da atriz, criado
pelo estilista Yves S. Laurent (...). (Fogg, 2015, p. 195)
Segundo
Buñuel citado por Carrière: “Todo o filme parece dizer que não há diferença,
que a vida imaginária é tão real quanto a outra, e que a vida que tomamos como
real pode a qualquer momento se tornar inverossímil (...)”. (Carrière, 2006, p.
89)
E nesse jogo de
variações temáticas e estilísticas, que se harmoniza neste filme, o movimento
narrativo foi transformado no remake
de Chicas y Maletas inserido
em Abraços Partidos. Almodóvar
relembra o espectador de Mulheres à Beira
de um Ataque de Nervos, cuja
metalinguagem se refere ao filme dentro de outro filme.
O filme é repleto de citações do próprio
universo cinematográfico de Almodóvar como uma estratégia de autocitação, seja
na ênfase de falar sobre as suas próprias personagens, seja na explicitação dos
códigos da metalinguagem. Este recurso metalinguístico é implantado como
parte fundamental na estrutura de Abraços
Partidos, a partir de Chicas y Maletas. Alguns trechos do spin-off do
curta-metragem A vereadora antropófaga
(Almodóvar, 2009) e seus bolinhos cheios de cocaína funcionam como uma espécie
de paródia de Mulheres à beira de um
ataque de nervos (1988).
Outra referência importante de Mulheres é o diálogo com a própria
tradição culinária e os gaspachos. Os elementos culinários quando são
redefinidos como um objeto em um novo contexto, a função é de servir para uma
nova releitura. E a finalidade de ser inserido em Chicas y Maletas como a cena em que Lena corta tomates e suas
lágrimas caem sobre os legumes fazem parte da poética almodovariana:
Segundo Lipovetsky, a metalinguagem
refere-se ao ato da comunicação quando faz uso da linguagem para falar de si mesmo,
ou seja, o objetivo da autorreflexão é o de buscar na própria linguagem novos
assuntos ou simplesmente realizar uma homenagem ao seu próprio cinema. Porém
Almodóvar comenta em entrevista que não se trata de autoimagem, mas é que assim
não precisaria pagar direitos autorais (Gimenes, 2009, p. 42).
O seu
trabalho exige uma reescritura visto que se trata de converter elementos
separados e descontínuos num todo contínuo e coerente: “Reescrever, realizar um
texto a partir de seus fragmentos, é arranjá-los ou associá-lo, fazer as
ligações ou as transições, que se impõem entre os elementos presentes. Toda a
escritura é colagem e glosa, citação e comentário”. (Samoyault, 2008, p. 34)
Conforme explica o professor
de estudos hispânicos da Universidade de Londres, a colagem de referências de
filmes emana do estudo de um outro elemento chave para a escrita da narrativa,
as imagens são como metáforas. O diálogo com Mulheres à beira de um ataque de nervos alcança a implementação de
uma nova eloquência no filme do diretor.
O diretor confia na habilidade do espectador de
reconhecer referências, conduzindo-o a uma espécie de prazeroso teste da
história do cinema à medida que o filme se desenrola. Em níveis mais profundos,
entretanto, a colagem de referências do filme reforça o tema pós-modernista de
Almodóvar sobre a natureza provisória e artificial do significado. (Evans,
1999, p. 23)
Considerações finais
A partir da década de 1990, o
diretor adota as releituras, a citação e a metalinguagem como características
do cinema pós-moderno. O remake do filme de 1988 é uma reinterpretação da sua
‘obra antiga’ e que abriga uma manifestação de liberdade no seu estilo próprio
e por meio do empréstimo informal de autocitação o diretor reverencia a
releitura, a reinterpretação e a reciclagem para aproveitar e desenvolver o seu
próprio movimento narrativo por meio de um outro filme, num olhar nostálgico
dirigido ao passado.
A utilização do remake cumpre a função de um refazer de Mulheres à beira de um ataque de nervos para o diretor se apoiar no argumento do
filme precedente, atualizando-o as suas formas visuais com a estética da pop art nos cenários e as cores fortes
nos figurinos de Abraços Partidos.
O cinema pós-moderno de Almodóvar se apropriou deliberadamente destes
procedimentos intertextuais e ao explorar os recursos do remake e da
autocitação torna-se uma marca como uma de suas características mais
importantes. As citações e releituras de obras de arte também são
utilizadas pelo diretor como em Abraços
Partidos e nesse quadro de referências o diretor implanta as metáforas no
filme como a obra do artista surrealista René Magritte Os Amantes (1928). A
citação da obra do artista surrealista na cena em que Lena e Ernesto passam os
dias em Ibiza, que fica no quarto do hotel provoca uma sensação de sufocamento
da personagem em relação ao marido quando se beijam sob os lençóis.
A obra magrittiana funciona
como uma metáfora da situação da protagonista, que após seis intercursos
sexuais com o marido remete a sua fala resgatada pela leitora de lábios: “tive
que aguentar aquele filho da puta 48 horas em cima de mim”. Desta forma, seu
estilo torna-se um artifício do efeito do espelho atuando sobre a própria
estrutura do filme.
A metalinguagem em seu cinema inspira o diretor a criar personagens e
situações e por meio de seus filmes, expõe ao espectador sua concepção estética
cinematográfica aliada a sua didática dos excessos do melodrama e enfatiza o
cinema como um espetáculo.
CARRIÈRE,
Jean-Claude. A linguagem secreta do
cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
EVANS, Peter
William. Mulheres à beira de um ataque
de nervos. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
FOGG, Marnie. Vestidos Eterno: 100 modelos e referências
que mudaram a história da moda.
São Paulo: Publifolha, 2015.
KAPLAN, E. Ann. A mulher e o cinema: os dois lados da
câmera. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1995.
KYROU, Ado. Le Surrealism au Cinema. Paris: Ed.
Arcanes, 1953.
LIPOVETSKY,
Gilles. A tela global: mídias culturais
e cinema na era hipermoderna. Porto Alegre: Sulina, 2009.
SAMAYAULT,
Tiphaine. A intertextualidade. São
Paulo: Editora Hucitec, 2008.
STRAUSS,
Frédéric. Conversas com Almodóvar. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
UZZANI, Giovanna. Pocket Visual Encyclopedia: Surrealismo. São Paulo: Editora Scala, 2011.
Ficha técnica dos filmes:
Título: Abraços Partidos
Direção: Pedro Almodóvar
Ano: 2009
País: Espanha
Elenco: Penélope Cruz (Lena), Lluis Homar (Mateo Blanco/Harry Caine),
Blanca Portilho (Judit), Lola Dueñas (secretária), Angela Molina (mãe de Lena),
Carmen Madi (amiga de Lena), Rossy de Palma (Julieta)
Título: Belle de Jour - A Bela da
Tarde.
Diretor: Luis Buñuel e o roteirista Jean-Claude Carrière.
Ano: 1967
País: França
Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geneviève Page,
Pierre Clémenti, Françoise Fabian e Macha Meril.
Graduada em Psicologia Clínica (Univ. São Marcos), Mestre em Artes Visuais junto ao Programa de Pós-Graduação do Instituto de Artes/UNESP e doutorado na área de Educação, Artes e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Integrante do LABDIC-Laboratório de Pesquisa em Identidade e Diversidade Cultural do Instituto de Artes da UNESP e realiza curso de especialização na UFSCAR em Cinema, comunicação e tecnologia. Atua como psicóloga clínica em São Paulo.

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