Pedro Almodóvar em Volver e as mulheres que choram também cantam
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O filme Volver (2006) traz a marca do estilo de
Pedro Almodóvar, que retorna ao passado e encontra nas lembranças de sua
infância, vizinhas, as mulheres sofridas e marcantes em sua vida para narrar a
história de Irene (Carmem Maura, a atriz do filme Mulheres à Beira de um Ataque
de Nervos, de 1988). E ao retornar em La
Mancha para a realização da filmagem ele reviu as mulheres da sua aldeia e
fez questão de convidá-las para participarem do filme. Portanto, elas são
figurantes e moram na cidade e continuam cuidando dos túmulos dos familiares.
A cena
inicial do filme, acompanha um grupo de viúvas e órfãs limpando os túmulos de
seus entes queridos no cemitério de La
Mancha, sob o vento Leste que, dizem que perturba os vivos e os espíritos. Os habitantes da cidade dizem que o
vento leste deixa as pessoas com problemas mentais e existe um alto índice de
insanidade na região por causa do vento, que também é responsável por diversos
incêndios que devastam a área em todos os verões.
O filme se passa nos
tempos atuais e Penélope Cruz estrela a fita no papel de Raimunda. A heroína é
filha mais nova de Irene, uma jovem bonita e sedutora, mas emocionalmente
frágil, que guarda um segredo de família. Ela vive com um marido desempregado
(Antonio De La torre) e uma filha (Yohana Cobo) em plena adolescência. As
finanças da família não vão bem, portanto, a protagonista acumula vários
empregos. Ela possui um talento para o canto e a culinária. Ela mata o marido
ao descobrir que ele tentou abusar de sua filha e esconde o corpo no
refrigerador do restaurante onde trabalha. Enquanto isso busca fugir das
implicações do crime, ela tenta entender um fenômeno inexplicável, que é a
volta de sua mãe (Carmen Maura) do mundo dos mortos. O filme inclui o
imaginário popular que é rico em histórias de sobrenatural, onde os mortos se
levantam de suas tumbas para resolver pendências com os vivos.
Almodóvar explica que
isso é um costume local: “Para você ter uma ideia, em todas as casas deixa-se
sempre uma vela acessa no cômodo da entrada durante a noite para o caso de
algum morto voltar” (Strauss, 2008, p. 285).
A Tia Paula (Chus
Lampreave) é uma mulher idosa, que está muito doente e a sua mente é confusa e
parece conversar com o fantasma de sua irmã, Irene. Mas elas não serão as
únicas defuntas na película de Almodóvar.
Na vila, todos os comentários são de que Irene
ressuscitou para cuidar da irmã, porque os boatos dizem que ela ressurge das
cinzas, causando um mal-estar familiar. O retorno da matriarca depois de cinco
anos, vai criar uma situação absurda e ao mesmo tempo engraçada, a mãe
escondida no porta-malas do carro da irmã é um gostoso nonsense, um absurdo na obra de Almodóvar.
A sua única irmã Sole
(Lola Dueñas), a mais velha. Ela é tímida e ganha a vida com seu salão de
beleza na sua própria casa, portanto, ilegal. Na adaptação da sala de seu
apartamento que se transforma em salão, a decoração é kitsch com cores fortes e vários padrões de estampa, ao mesmo
tempo.
Na
produção de Volver, a música possui
um estatuto muito particular, pois o caráter não figurativo do signo musical
estabelece uma tensão contínua com os demais elementos da narrativa. Esse
aspecto por si só, aponta a influência do efeito musical na construção de uma
cena fílmica.
Segundo
Maurice Merleau Ponty em sua obra O
cinema e a nova psicologia, o filósofo
define a música no cinema:
A música tem a finalidade de marcar uma mudança de
estilo no filme: a passagem, por exemplo, de uma cena de ação interior de uma
personagem à evocação de cenas anteriores (...). No cinema a palavra não tem a
missão de aduzir as ideias às imagens e nem a música a sentimentos. O todo nos
comunica qualquer coisa bem determinada, não se tratando de um pensamento, nem
de uma evocação dos sentimentos da vida (Xavier, 1983, p. 114).
Segundo
o autor, a música no filme não serve apenas à ilustração ou caracterização de
atmosferas e o ritmo ao filme. A força dos elementos sonoros que acentuam a performance
do ator em cena, porque as canções ajudam a tecer o fio narrativo da obra cinematográfica.
Almodóvar
é conhecido também pelo primoroso roteiro e direção em seus filmes, mas as
canções e trilhas sonoras propostas em suas narrativas, de forma harmoniosa, nem
sempre são conhecidas pelo público em geral.
As
vozes femininas que cantam em seus filmes como Raimunda possuem muita
dramaticidade e é uma estratégia deste diretor que, por meio da letra da
música, conta-se a história da personagem. Outra contribuição da trilha sonora
é que o diretor escolhe as músicas e imprime uma marca autoral ao escolher
boleros, merengues, mambos e canções flamengas, interpretadas por grandes
artistas latinas, dentro do filme ou fora de cena. E as músicas não tocam nas
rádios, porque são músicas das décadas de 40 a 60 do século passado, mas que
permanecem na memória da cultura espanhola. O fato de existirem canções cujas
letras falam pelos personagens cria uma aliança entre a história do personagem
e a canção, numa harmonia no todo do filme.
A
pesquisadora da Universidade de Salamanca, Dra. Matilde Olarte, em palestra
proferida em 2002 na Holanda, comentou que:
As canções de Almodóvar participam da composição do perfil dos personagens e fornecem ao espectador um índice de “latinidade”, ou mais precisamente, de um modo “latino” de expressar sentimentos e operam, por meio de letras, muitas vezes como uma espécie de fala cantada (Revista Repertório, 2008, p.13).
A
pesquisadora também valoriza e nomeia sobre esta estratégia de direção de
metatexto na obra deste diretor. Ela acrescenta que a interpretação vocal é
sempre feminina, com acentuada dramaticidade. Como as telenovelas mexicanas que
tem este perfil e que evoca o amor irrefletido, onde o choro nunca é
interditado. O amor intenso parece ser o “sal da vida” nessa “vida em sal”. Não
é incomum encontrar em artigos e críticas sobre os filmes de Almodóvar, cujos
comentários atribuem ao fato de ele utilizar canções cujas letras trazem
comentários poéticos das situações dramáticas, ou seja, as melodias
sentimentais são geralmente cantadas por famosas artistas da língua espanhola.
Almodóvar se inspirou no
Neorrealismo e não hesitou em dar a Penélope Cruz uma imagem que recorre a
todos os artifícios puramente cinematográficos. Ele queria descobrir a imagem
da mulher, da mãe de família em todo o seu esplendor, tal como existe no cinema
italiano. O gênero cinematográfico foi um
movimento cultural surgido na Itália ao
final da Segunda Guerra Mundial, cujas
maiores expressões ocorreram no cinema. As características eram o uso de
elementos da realidade numa peça de ficção. Ao contrário do cinema tradicional,
o Neorrealismo buscou representar a realidade social e econômica de uma época.
Nesse
sentido, o trabalho da figurinista Bina Daigeler
(1965) consistiu em transformar Penélope Cruz numa diva italiana dos anos de
1950/ 1960. As roupas usadas pela atriz foram inspiradas nos exuberantes
decotes e corpetes de Sophia Loren (1934) no filme: Ontem, Hoje e Amanhã (1963),
de Vittorio De Sica (1901-1974) (Coleção Folha Cine Europeu, 2011, p. 30).
A maquiagem e os cabelos que compõem a figura da personagem
Raimunda, que também foram inspirados nas divas italianas. A escolha das roupas
faz parte da construção dos personagens de uma maneira especial. No início era
o próprio Almodóvar e seus amigos, que decidiam o que o elenco usaria,
emprestando, às vezes, peças do próprio vestuário.
O arquétipo materno também é marca do diretor, que dirigiu com
muita sensibilidade e as faces do feminino no universo familiar, os laços de
família na relação entre as duas irmãs Raimunda e Sole e o súbito
reaparecimento da figura materna, que deixa as duas mulheres atordoadas como se
tivessem que conviver com um fantasma dentro de casa.
O perfil de cada personagem acaba brotando de suas roupas, como um objeto de comunicação não verbal. As cores e sua intensidade entre os risos e as lágrimas com suas personagens.
Rosângela Canassa
Referência
bibliográfica
1-PRETTE, Maria Carla. Para entender a arte: história, linguagem, época e estilo. São Paulo: Globo, 2008.
2-Revista Bravo. São Paulo: Editora
Abril, 2011.
Revista Repertório Teatro & Dança – Ano 11 – 2008 – PPGAC –
Universidade Federal da Bahia.
3-STARLING Cássio. Pedro Almosóvar: Volver – vol. 6 –
Coleção Folha Cine Europeu, 2011.
4-STRAUSS, F. Conversas com Almodóvar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
5-XAVIER,
Ismail. A experiência do cinema:
antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilmes, 1983.
Ficha técnica do filme:
Título: Volver
Direção: Pedro Almodóvar
Ano: 2006
País: Espanha
Elenco: Carmem Maura, Penélope Cruz, Lola Duenãs, Blanca Portilho, Yohana Cobo e Chus Lampreave

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