JULIETA

 





JULIETA o filme de Pedro Almodóvar, 2016, foi baseado no livro de Alice Munro. As músicas, as fotos, as cores, as janelas, movimentos de câmara na paisagem urbana (Madri), ambientes kitsch, amizade entre mulheres tudo funciona como estratégias criativas para acessar o ponto crítico do espectador.

Julieta (Emma Suárez/Adriana Ugarte) é uma mulher de meia idade que está prestes a se mudar de Madri para Portugal, para acompanhar seu namorado Lorenzo (Dario Grandinetti). Entretanto, um encontro fortuito na rua com Beatriz (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha Antía (Blanca Parés) faz com que Julieta repentinamente desista da mudança. Ela resolve se mudar para o antigo prédio em que vivia, também em Madri, e lá começa a escrever uma carta para a filha relembrando o passado entre as duas. Escreve a personagem: Sou Julieta. Viúva, mãe de Antía, e não a vejo há 12 anos; encontrá-la é o propósito da minha vida, ainda que por vezes fiz parecer até para mim mesma que havia desistido. Neste drama sem pausa, minha viagem foi marcada por solidão, angústia e culpa. Tornei-me alguém ligada ao passado; refém do tempo, passei grande parte da minha vida perdida entre lembranças e tristeza.

A dor e o silêncio são os personagens mais importantes da minha história. Estou procurando recomeçar a vida, tenho um namorado, Lorenzo, e queremos mudar para Portugal. Mas tenho medo de deixar Madri - a única referência que Antía tem para me localizar – e não estou certa se consigo seguir com o homem que amo. Me sinto velha, mas ele diz que pareço uma menina e que está contente por eu não o deixar envelhecer sozinho. Para nossa mudança, embalo a estatueta e um livro de arte escrito por Lorenzo enquanto despejo no lixo o que me prendia aqui como recordações de Antía.

É num certo dia encontro Beatriz, moça que foi amiga inseparável da minha filha. Ela não se casou, trabalha com moda, e está acompanhada de três figuras. Há uma semana encontrou Antía, que tem três filhos, nas imediações do Lago de Como. Vocês não podem imaginar meu susto, minha surpresa com este encontro. Antia perguntou por mim! Fico atordoada após o encontro com Bea, e desisto de desistir.

Não deixarei Madri. Na minha parede, atrás de mim, há um quadro, o autorretrato de Lucien Freud Reflection (1985), onde o olhar triste e amargurado do pintor mostra o mesmo descontentamento com a vida que sinto.

Lorenzo liga, não atendo. No dia seguinte, ele chega e pergunta se está tudo bem. Digo que não vou mais viajar, vou ficar sozinha em Madri. Não quero contar o meu segredo. Ele me olha profundamente triste. E parte.

Vou até o prédio onde morava, como sempre não tem correspondência.  Decido alugar um apartamento no mesmo prédio, quem sabe Antía aparece... Tento recompor o quebra-cabeça que fiz com o retrato meu com Antía que eu havia rasgado. Assim que me instalo, começo a escrever um diário. A foto está restaurada. Ao escrever, estou consolidando a minha reconexão com o circuito mãe-filha-perda-culpa-esperança-perspectivas-encontro-desencontro.

Este diário vai contar a Antía tudo o que ela não sabe. Por onde começo? Já sei, vou começar falando como conheci seu pai. Em 1985 eu era uma jovem professora de literatura clássica. Tinha 25 anos e viajava de trem numa noite em que ventava muito. Lia na cabine quando entrou um senhor de aspecto triste e solitário e me perguntou se viajava sozinha. Fiquei com medo dele, saí da cabine e fui até o vagão restaurante. Avistei um cervo correndo no nevoeiro. Que imagem bonita! Um belo rapaz, dirigindo-se a mim, diz: tomara que o cervo não chegue perto do trem. Respondo: ele está procurando uma fêmea.

Este rapaz chama-se Xoan, é casado, mas sua mulher Ana está em coma há cinco anos. É pescador na Galícia, sempre viveu perto do mar. O trem faz uma parada de 10 minutos, ele me convida para esticar as pernas lá fora, eu quero ir, mas não aceito, ele vai sozinho. Continuo lendo A Tragédia Grega. Pouco depois, o trem é freado subitamente, barulho, pessoas caindo. Será que o cervo foi atropelado? De repente dou falta do homem que viajava na cabine comigo. Corro para lá, abro a bolsa dele, está vazia! Que pesadelo! Vejo que Xoan e outros carregam uma maca. Não é o cervo, é o homem vestido de preto. Ele se matou! Conto o diálogo para Xoan e me sinto culpada por não ter lhe dado ouvidos e atenção. Ele me acalma e me convence que o suicida havia planejado seu ato e isso aconteceria de qualquer jeito. Inquieta, angustiada, não consigo dormir.

 Ele se aproxima, deita-se ao meu lado. Nos beijamos. Nossos corpos precisam se encontrar. Tivemos uma intensa noite de amor.

Bem jovem, professora suplente, explicava para alunos de literatura clássica os sentidos da palavra ‘mar’ em grego; um dos sentidos, Pontos, é a divindade do mar aberto, do mar profundo, o caminho da aventura, do desconhecido, da promessa de eternidade.

Falo do romance de Ulisses com a ninfa Calipso, que ofereceu a Ulisses a juventude eterna e a imortalidade, mas ele recusou e voltou ao mar, para tornar a Ítaca e rever Penélope. Redes é a Ítaca de Xoan.

Minha suplência terminou e na despedida, a diretora me entrega uma carta. Surpresa! É de Xoan, e ali ele diz que o único jeito de me localizar era escrevendo para a escola, sua única referência. Diz que tem pensado muito em mim. Me dou conta que anos depois repeti o pensamento de Xoan ao retornar ao antigo apartamento onde vivi com Antía. Era, para ela, meu único endereço.

Chego à casa dele em Redes, litoral da Galícia. Marian, a caseira possessiva e grosseira me recebe. Comenta que o enterro foi ontem. Enterro? Xoan está com Ava, escultora. Marian diz que Xoan não volta, insiste para que eu pegue o ônibus e me vá. Prefiro ficar. Xoan chega à noite. Me vê dormindo na cadeira. Me pega no colo. Me deita, nos despimos e fazemos amor.

De manhã, no café, digo que sua carta parecia um convite. Ele confirma. Vamos pescar, e fazemos amor no barco. Estou apaixonada. Vou até Ava que me mostra a estatueta pesada do homem sentado, ficamos amigas. Conto que estou grávida de Xoan, ele não sabe, não quero pressioná-lo. Ela me convence a contar para ele.

Numa visita a meus pais na Andaluzia, Antía já com dois anos, meu pai me apresenta Sanáa, uma jovem que cuida de minha mãe e da terra. Fico meio desconfiada. Minha mãe, definhando, está trancada no quarto pelo lado de fora. Ela tem uma doença neurológica degenerativa.

Prefiro dormir no quarto com Mamãe, ela acaricia meu rosto de madrugada, eu acordo. De manhã vejo pela janela meu pai e Sanáa na terra, parecem enamorados. Desço ao jardim com Mamãe. Me incomoda vê-la trancada, inválida, paralisada. Meu pai diz que é para protegê-la. Mamãe precisa mais do que apenas cama arrumada e banho, penso. Inflexível, frio, pede que eu seja mais compreensiva e generosa com ele. Insinua que cada um escolhe seus caminhos, e que escolhi viver longe dali.

Voltando de viagem, vejo uma tatuagem em Xoan: AJ dentro de um coração, de Antia e Julieta, segundo ele. Ou será Ava e Julieta? Aos nove anos Antia é muito ligada ao pai. Não quer ir ao acampamento, prefere ficar pescando com ele. Marian vai cuidar do marido doente, Antia não quer que ela vá e me acusa de não lhe pedir que fique. Levo Antia até o ônibus, ela me pede desculpas, e me acena sorridente da janela. Nós nos amamos.

Antes de partir Marian me reprova por eu querer voltar a lecionar, afirma que “a profissão de uma mulher é sua família e se quiser mantê-la unida é melhor ficar em casa”, e acrescenta, com olhar sinistro: “é quando as coisas acontecem, vai se repetir”. Maldosa, me conta sobre a relação de Xoan e Ava no passado.

Discutimos, ele e eu enciumada, por isso. Ele diz que se conhecem desde os 15 anos, que transam de vez em quando, só isso, nunca namoraram. Fico apreensiva, ele me pergunta se não vou falar nada, digo que preciso preparar as aulas. Ele diz que vai pescar e eu saio.

O clima entre nós está carregado. Carregado como o céu, ondas gigantes no mar. Mas não tento convencê-lo a não sair. E ele vai. Retorno à noite, no meio da chuva. Olho para o mar inquieta, assustada. Minha cabeça está girando entre ondas e rochas. Estou prestes a naufragar. O rádio avisa que as embarcações precisam voltar. Ligo para Ava e pergunto se ela está com Xoan. Não está! Pela TV, ficamos sabendo perplexas, paralisadas, que um barco naufragou e não se achou seu ocupante. Mais tarde sou levada para reconhecer o corpo. É Xoan. O cadáver está mutilado devido à violência do temporal. Eu reconheço a tatuagem e passo meus dedos sobre ela, me sentindo afogada na minha dor.

Rivais e parceiras, eu e Ava juntas vamos devolver ao mar as cinzas de Xoan. Já em casa, Ava atende ao telefone. É Antia, feliz, falando do acampamento. Não conto nada, digo que vou buscá-la com Ava. Apreensiva, sofro e paraliso ao pensar como contar para minha filha sobre a morte do pai.

Aquele acampamento, para onde Antía foi com tanta resistência foi, como a morte de Xoan, um divisor de águas nas nossas vidas. Foi lá que ela conheceu Bea, com quem, agora posso supor, veio a ter sua iniciação sexual.

Vou ao encontro de Antia em Madri, na casa de Bea. Ela surge feliz, e pede para ficar mais tempo por ali. Pergunta pelo pai. Com voz embargada, conto a tragédia: o meu Ulisses foi tragado pelo mar. Ali, atrás de nós, tem uma gravura de Richard Serra chamada Reykjavik (1991). A obra se compõe de dois blocos negros retangulares que não chegam a se tocar, como nós estamos: vivendo momentos diferentes sem poder nos conectar.

Com o passar dos dias, fui ficando mais e mais deprimida e tomada de culpa pela morte do meu amor. Em Madri alugamos um apartamento perto de Bea. Estou destruída, quase paralisada, mas minha filha amadureceu e foi sozinha a Redes vender a casa do pai. As duas meninas cuidaram de mim como uma mãe cuida de um bebê: eu não teria sobrevivido sem elas. “As coisas acontecem sem a minha participação, uma anunciando a outra”.

Quatro anos mais tarde Antía vai para os Pirineus. Eu não queria que ela fosse, mas não pude negar. É um retiro, vamos ficar incomunicáveis. Pega suas roupas, uma foto do pai e uma da cantora Chavela Vargas (1919-2012), especializada em rancheiras. Eu não sabia, naquela ocasião, que ela e Bea haviam rompido e, por conta das atitudes de Antía, Bea foi para os EUA. Antia se vai, eu estou triste, choro. Vejo a imagem do suicida do trem e de Xoan, é como se estivesse me despedindo dela para sempre.

Três longos meses depois vou buscar Antia, quero vê-la. Tomo chá com a diretora, que me diz com toda a naturalidade que Antía não está ali. Partiu. Não pode falar onde ela está. Antia não quer me ver, escolheu um caminho do qual eu não faço parte, que preciso aceitar a realidade.

Que eu devo parar de pensar só em mim! Em mim?! Descubro que pouco sei a respeito da minha filha. Me sinto tão paralisada quanto Ana e minha mãe. Meu pai me liga, fala do meu irmãozinho, conta que minha mãe morreu, não quero falar com ele.

Cada ano um bolo e um cartão de Feliz Aniversário, sem remetente e sem texto, que chega para Julieta Arcos. Após três aniversários jogando bolo no lixo, resolvo me mudar. Resolvo mudar. Desmonto o seu quarto e mudo de casa. Procuro um bairro onde nada me lembre dela. Desisto de minha busca?

Vou visitar Ava no hospital, ela está semiparalisada, com esclerose múltipla. Vejo um homem saindo do elevador, ele me encara. Ava me presenteia com a estatueta do Homem Sentado. Quer me falar sobre Antia.

Quando fecharam a casa em Redes, Marian apareceu e contou todos os detalhes sobre o último dia de Xoan, que entrou no mar agitado. Antia queria que confirmasse se havíamos discutido por causa dela, Ava. Marian culpou nós duas por Xoan ter ido pescar. Antia fez as mesmas perguntas a Ava. A culpa agora se estendia às três, ela inclusive, porque havia se ausentado e tinha estado feliz no acampamento. Antia, com raiva, disse então que “cada uma tem o que merece”.

 “Eu te eduquei na mesma liberdade que meus pais me educaram. Nunca quis te falar disso, você era muito pequena para que te perturbasse com a amargura de minha culpa. Eu era asfixiada pelo sentimento de culpa pela morte de teu pai e do homem do trem, mas evitava falar disso, não queria te sobrecarregar. Mesmo assim, você a percebeu e eu contagiei você como um vírus, apesar do silêncio”.

Lorenzo Gentile se apresenta a mim no enterro de Ava, tínhamos nos vistos no elevador, ‘que mulher tão bonita e tão abatida’, havia ele pensado. Ava me deixou Lorenzo de herança.

E este homem me trouxe à vida mais de uma vez. Começo vida nova com ele. Mas tive uma recaída de Antía, esperança absurda. “Só existe ela, sua ausência enche minha vida e a destrói”. Certo dia, reencontro Bea. “Você está tão mal, e estava bem!” Conto-lhe que não via minha filha há 12 anos.

E ela me revela que as duas haviam sido mais que amigas, e que agora Antía falava como uma fanática, que a rejeitara, tinha vergonha da relação que viveram, e que Bea não fazia mais parte de sua vida.

Atravessando a rua como um zumbi, sou atropelada, claro! E Lorenzo ali bem na hora do acidente! Estou no hospital, e ele me traz uma bolsa que pegou na minha casa, onde viu aquela foto e outra de nós dois. Lá dentro está o meu diário.

Peço para Lorenzo ler e rasgar depois, pois novamente eu quero romper com o doloroso passado. Porém, surpresa! Ali há também um envelope. É de Antía Feijóo da Suíça. Minha boca treme, a respiração acelera, choro. Ela conta que tem três filhos: “Xoan, com nove anos, morreu afogado no rio e estou louca de dor; nestes momentos penso em você e entendo como você sofreu quando desapareci. Quem não sofreu isto, não pode imaginar”.

Quero estar com Antía, que exatamente como seu pai havia feito no passado, também não me convidou explicitamente. Mas me deu o endereço e estamos indo para lá. Eu e Lorenzo, que me conduz. Não vou perguntar nada, vou deixar tudo acontecer naturalmente, só quero estar com ela. Avistamos os Pirineus, o lago de Como... e ouvimos a voz forte de Chavela Vargas cantando “Si no te vas, que começa com: Si no te vas, te voy a dar mi vida...”.

 




Ficha técnica:

Filme: Julieta

Direção/roteiro: Pedro Almodóvar

País: Espanha: 2016

Elenco principal:

Adriana Ugarte/ Julieta Arcos, jovem/Emma Suárez

Agustín Almodóvar/ Revisor del tren

Bimba Bosé

Daniel Grao

Xoan Feijóo

Darío Grandinetti

Disponível na Netiflix

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